A máquina da verdade

Estamos diante de algo que não pode ser compreendido em sua totalidade hoje, não se engane. Apenas no futuro, quando tudo que especulamos se tornar verdade (ou não) é que poderemos entender o momento pelo qual estamos passando agora. 

A “commoditização” da confiança

No primeiro filme do Homem de Ferro, o engenheiro Tony Stark é sequestrado por um grupo terrorista no Afeganistão e no melhor estilo MacGyver cria um reator capaz de gerar energia suficiente para uma armadura de ferro que o ajuda a fugir do cativeiro. 

Depois de deixar os seus sequestradores para trás, o personagem interpretado pelo ator Robert Downey Jr. se tranca em seu laboratório para criar uma versão melhorada do reator e da famosa armadura de ferro. 

Com o novo equipamento em mãos, o herói aposenta o antigo e o guarda como um artigo de decoração em sua mesa. Nesse momento, já temos pelo menos dois modelos desse dispositivo. 

No segundo filme da franquia, a história começa com Ivan Vanko, o Chicote Negro, um russo que consegue fabricar um reator em miniatura semelhante ao que Stark havia construído.

A partir desse momento, pensei que esse negócio de reator ultraespecífico e difícil de ser fabricado tinha acabado. A principal vantagem do Homem de Ferro tinha se commoditizado, pois um russo com pouquíssimos recursos o tinha copiado. 

Aquilo que, a princípio, um único homem podia conceber provavelmente seria vendido em um futuro próximo nas vielas da Rua 25 de Março, no centro de São Paulo. 

É um processo quase que natural das inovações: a disrupção e a consequente caminhada para o status quo, ou commoditização. 

Veja só o caso do bitcoin: foi o pioneiro na ideia de dinheiro digital sem intermediários, mas hoje já tem diversas cópias e filhos bastardos. 

O advento da libra, moeda virtual criada pelo Facebook, deixou bem claro que não há barreiras para a criação do dinheiro. 

Se a moeda fiduciária apenas depende da fé no sistema que a criou, os 2 bilhões de usuários do Facebook podem ser, sim, cidadãos de uma nação que atravessa fronteiras. 

Difícil de imaginar? Nem tanto. A religião é uma crença que une diversos povos ao redor do mundo, independentemente dos limites geográficos. 

Como disse Yuval Harari no livro “Sapiens — Uma Breve História da Humanidade”, tudo em que acreditamos não passa de uma construção coletiva, pura imaginação; basta acreditar coletivamente para a crença fazer sentido. 

Da mesma forma que a religião depende da quantidade daqueles que acreditam nela para ter valor, a moeda fiduciária se apoia no consenso e na confiança. 

Ainda no paralelo com a religião, uma fé compartilhada com duas pessoas não tem poder ou valor, mas a compartilhada por bilhões, sim. 

Por isso, a ideia de um dinheiro não soberano como a libra é algo que assusta os governos e põe em xeque uma das principais formas de controle e poder de uma nação. 

Estamos diante de algo que não pode ser compreendido em sua totalidade hoje, não se engane. Apenas no futuro, quando tudo que especulamos se tornar verdade (ou não) é que poderemos entender o momento pelo qual estamos passando agora. 

Quem viveu a Revolução Francesa também não sabia que estava em meio a uma revolução e que tudo começaria com a tomada da Bastilha. 

A hipótese de que o bitcoin possa fazer parte dessa mudança de paradigma deve ser seriamente considerada. 

Mas a transformação da nossa realidade resultante da invenção de Satoshi Nakamoto não é apenas a de permitir transações interfronteiriças, vai muito além. 

Estamos falando da commoditização de algo que por muito tempo achamos que não pudesse chegar a esse nível, a confiança

Um blockchain é uma máquina da verdade, como diz o livro de Michael J. Casey e Paul Vigna, “The Truth Machine: The Blockchain and the Future of Everything”, que discorre sobre o blockchain a partir dessa perspectiva. 

Essa máquina é capaz de tirar vários intermediários do caminho e entregar mais valor às duas pontas, que antes necessitavam confiar em um terceiro para se relacionarem. Isso é apenas um dos lados da disrupção apresentada. 

E, a partir dela, posso falar sobre uma iniciativa que dificilmente pode ser reproduzida no mundo físico atual. Explico. 

Imagine uma loteria em que nunca se perde dinheiro. Você compra um bilhete toda semana com o mesmo dinheiro sempre. 

Na primeira semana, eu coloco 2 reais para ter direito a um bilhete e, caso não ganhe o sorteio, meu dinheiro é devolvido. 

Na semana seguinte, com o mesmo dinheiro, eu compro mais um bilhete e assim consigo repetir o processo inúmeras vezes. 

Muito ilógico? 

Nem tanto. Imagine que o dinheiro que está investido em Tesouro Selic (título público indexado à taxa de juros) tem rendimento diário. 

Agora imagine que milhões de pessoas comprem bilhetes de loteria e esse dinheiro vá para uma conta que rende o CDI (referência das aplicações de renda fixa) diariamente e que toda segunda-feira tem um sorteio novo. 

O prêmio do sorteio será o rendimento obtido em uma semana de todo o dinheiro colocado na conta. E como se trata de milhões de reais, não é um prêmio desprezível. 

É essa a estrutura necessária para a nossa loteria com bilhete renovável. 

No entanto, fazer isso com a estrutura atual (de casas lotéricas e bancos) sairia muito caro e não valeria a pena, pois boa parte do prêmio ficaria com os intermediários. 

Por outro lado, usando um blockchain, é possível fazer isso de forma automatizada e sem intermediários. 

O PoolTogether é uma iniciativa que faz exatamente isso. Neste momento, o prêmio está acumulado em aproximadamente 153 dólares, como mostra a imagem abaixo.

O prêmio é realmente pequeno (cerca de 612 reais), mas o fato de ser um bilhete virtual sem prazo de validade faz com que seja atrativo. 

Esse é só um dos modelos possíveis com a commoditização da confiança. Existem pelo menos mais dez modelos diferentes desse que também fazem parte dessa revolução. 

Mais uma vez me vem aquela sensação de que essa transformação radical não tem volta e que a nossa tomada da Bastilha foi o whitepaper de Satoshi Nakamoto publicado mais de dez anos atrás. 

Abraços, 

André Franco

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