Ainda não é muito tarde para chegar cedo

Os eventos iniciais ocorrem em espaços restritos. Na visão da maioria dos contemporâneos, ainda que com frequência figurem nas manchetes das primeiras páginas, suas várias implicações são em geral visíveis para uma minoria empreendedora. “Technological Revolutions and Financial Capital”, de Carlota Perez

A coexistência de dois paradigmas

Os eventos iniciais ocorrem em espaços restritos. Na visão da maioria dos contemporâneos, ainda que com frequência figurem nas manchetes das primeiras páginas, suas várias implicações são em geral visíveis para uma minoria empreendedora.

“Technological Revolutions and Financial Capital”, de Carlota Perez

Carlota Perez, autora do trecho acima, mapeou em 2002 a anatomia das inovações e como elas se comportam ao longo dos anos.

A primeira edição de seu livro foi publicada logo após o estouro da bolha pontocom e a escritora previu que os próximos anos reservariam momentos de sinergias para o novo paradigma que a internet havia criado.

Ela não poderia estar mais certa.

Depois do crash do índice da Nasdaq, o que se seguiu foi um ciclo de sinergia e maturidade da tecnologia, como consta no modelo elaborado por Carlota.

No livro a autora pontua que existem duas fases de uma inovação até ela atingir o ápice.

Essas, por sua vez, são divididas em dois períodos, compondo assim quatro momentos até a completa aceitação das massas: irrupção, frenesi, sinergia e consolidação.

E tudo seria lindo se na subfase entre frenesi e sinergia não houvesse o crash, que é o ponto em que há um descolamento entre expectativa e realidade.

Quando isso ocorre, os investidores perdem dinheiro e consequentemente começam a duvidar do futuro da tecnologia.

Foi assim na revolução industrial britânica, com as máquinas a vapor, aço, eletricidade, máquinas pesadas, petróleo e automóveis.

Todas essas inovações passaram pelas fases apontadas no estudo da pesquisadora.

Mais do que isso, no momento em que a obra foi publicada, Carlota visualizou um futuro promissor para a mais recente inovação da época, a internet.

A sua previsão se provou certa e a sua tese se consolidou.

Vejo o modelo se encaixando como uma luva em cripto, mas com uma ressalva.

Não gosto de ver a bolha dos criptoativos como o momento referido pelo modelo de crash e minha justificativa é quantitativa e simples.

Quando a bolha ponto com estourou, o mercado da internet era de US$ 3 trilhões; já o mercado cripto, até o pico em janeiro de 2018, atingiu apenas US$ 800 bilhões.

Isso mostra que o crescimento foi bancado principalmente pelo varejo, e não por investidores institucionais como aconteceu em todas as outras mudanças de paradigmas.

Consequentemente, vejo que esse crash ainda vai acontecer no futuro e vai ser puxado pelo investidor com bolsos mais fundos, mas até lá ainda temos chão.

Enquanto essa classe não atingir a casa dos trilhões de dólares, vai faltar legitimidade quantitativa para argumentar com os investidores profissionais e fundos de pensão.

Por isso gosto da frase que fez você abrir esta publicação: ainda não é muito tarde para chegar cedo.

Forte abraço,

André Franco

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