Escassez digital vs escassez física

A história conta que o imperador Napoleão Bonaparte, dentre seu vasto conjunto de talheres para servir seus convidados, tinha talheres de prata, de ouro e de alumínio. Os talheres de alumínio o imperador guardava para si e para os seus convidados mais ilustres, enquanto os menos prestigiados tinham que se contentar com os de ouro.

O PONTO ONDE A MAIORIA SE PERDE

A história conta que o imperador Napoleão Bonaparte, dentre seu vasto conjunto de talheres para servir seus convidados, tinha talheres de prata, de ouro e de alumínio.

Os talheres de alumínio o imperador guardava para si e para os seus convidados mais ilustres, enquanto os menos prestigiados tinham que se contentar com os de ouro.

Isso pode parecer totalmente contraintuitivo, mas, na época de Napoleão, o alumínio era mais valioso do que o ouro e a prata — porque era mais escasso.

Essa carência do metal se devia ao fato de ele ser encontrado muito pouco em sua forma pura e, naquele período da história, ainda não se conhecia a bauxita, matéria-prima da qual se extrai o alumínio atualmente.

Na verdade, essa escassez era falsa, isso porque o alumínio é o terceiro elemento mais abundante na face da Terra, atrás apenas do oxigênio e do silício.

É assim que funciona a escassez no meio físico, um conceito que não depende da raridade em si, mas da acessibilidade aos elementos que as tecnologias nos permitem.

Água potável é escassa? Para grande parte da população mundial, sim, mas na verdade ela só não está acessível a todos.

Se descobrirmos um processo de dessalinização barato, podemos transformar a água do mar em potável e resolver o problema da escassez de água no mundo.

Em resumo, a escassez física pode, sim, ser uma farsa quando está pautada na acessibilidade que as tecnologias contemporâneas nos oferecem.

Em contrapartida, a escassez digital é mais robusta, e provo isso abaixo.

Novamente, pode parecer contraintuitivo, mas algo que veio para entregar abundância para todo mundo (a era digital) tem como uma das suas inovações a escassez.

Deixe-me aprofundar o conceito com um exemplo bem simples.

A fotografia era algo extremamente caro quando surgiu e por isso temos pouquíssimas fotos dos nossos avós quando jovens.

O tempo passou e esse recurso foi ficando cada dia mais barato e acessível a todos e, por conta disso, a minha geração passou a ter e tirar fotos em profusão.

Mas a revolução da quantidade abundante e ilimitada de fotos veio realmente com a propagação do uso da foto digitalmente.

Podemos citar outras coisas como e-mails, documentos, aplicativos, etc., mas acho que você entendeu que o digital entregou abundância nos mais diversos sentidos para a nossa sociedade.

Por isso, parecia impossível a criação de um dinheiro digital que reunisse características como a escassez e evitasse a sua cópia da mesma forma que podemos fazer com fotos e documentos digitais.

Então surgiu o bitcoin, que entregava escassez e resolvia o problema do gasto duplo, que é a replicação de um bem digital ad infinitum.

Como muitos sabem, está escrito em código que o bitcoin está limitado a 21 milhões de unidades. Isso não vai mudar

Além disso, a emissão de bitcoins acontece de forma programada, a cada 10 minutos, e, a cada quatro anos, a produção cai pela metade.

Temos ainda outras características desse ativo, mas vamos focar na raridade e no limite de emissão de 21 milhões.

Pois é exatamente nesse ponto que a maioria das pessoas se perde.

A criação de algo que é essencialmente digital e escasso é uma revolução que boa parte do mundo vai entender em retrospecto, assim como foi a internet.

Por isso, um dos principais argumento dos detratores do bitcoin é que ele pode até ser escasso, mas isso não significa que ele teria valor.

No entanto, esses mesmos “especialistas” acham que o ouro tem algum valor intrínseco que não seja o derivado da sua escassez.

ERRADO.

A ideia de expor ouro em braços e pescoços como joia só existe devido a sua escassez.

Mas essa raridade é frágil assim como era a do alumínio. Digo isso porque se os alquimistas tivessem encontrado a pedra filosofal e conseguido transformar tudo em ouro, ele não seria tão valioso.

Mas deixando a história de lado, há um mês o presidente dos EUA, Donald Trump, assinou um decreto apoiando a mineração na lua.

Fonte: space.com

Novamente, volto a afirmar que a escassez física é uma invenção pautada em bases frágeis.

Por isso, eu fico com a escassez digital para o longo prazo.

Forte abraço,
André Franco

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