História em códigos

Se você conhece a história da evolução do dinheiro, sabe que ela tem tudo a ver com as necessidades humanas. Além disso, deve conseguir entender qualquer coisa que já foi criada e perdurou por um certo tempo.

UMA BREVE (TALVEZ CHATA) HISTÓRIA DA CRIPTOGRAFIA

Se você conhece a história da evolução do dinheiro, sabe que ela tem tudo a ver com as necessidades humanas. Além disso, deve conseguir entender qualquer coisa que já foi criada e perdurou por um certo tempo.

Digo isso baseado no fato de que as criações que não têm utilização vão sumindo ao longo da história. Uma lança que tivesse a ponta redonda e não causasse ferimento nenhum não teria utilidade para um caçador. Uma pedra que se esfarelasse com uma única batida não serviria como martelo. 

Assim, a humanidade vem criando utensílios, objetos e saberes ao longo das eras. Consequentemente, aquilo que fica sem utilidade perece no caminho.

Da mesma forma, aconteceu com a criptografia, que nasceu por uma necessidade dos impérios de enviar mensagens privadas para além das suas fronteiras em tempos de guerra.

Na verdade, a criptografia tem uma irmã que nasceu na mesma época, sendo essa de mais fácil execução, a esteganografia. Desculpe os dois palavrões, mas fique tranquilo, que, apesar de os nomes assustarem, os conceitos por trás deles são muito simples.

Para nós, neste momento, basta esta simples definição:

Criptografia: conjunto de técnicas para tornar uma informação sem sentido para os que não tenham acesso às convenções combinadas.

Esteganografia: estudo e uso de técnicas para ocultar a existência de uma mensagem.

E se você era da turma da caligrafia ruim durante toda a sua infância e adolescência, deve ter pensado que seria um belo de um profissional nessas duas áreas.

No entanto, a sua letrinha feia, que não era entendida por ninguém, não faz de você um bom criptógrafo. Apenas faz da sua escrita uma péssima caligrafia.

Falo isso porque sou também da turma da caligrafia ruim e me permito a crítica velada de humor.

Em “As Histórias”, de Heródoto (480 a.C.), constam relatos de mensagens tatuadas nas cabeças raspadas de escravos para posteriormente serem escondidas pelos cabelos e, na sequência, raspadas novamente para serem lidas por quem deveria receber a mensagem.

Também há registros de escritas em tabuletas ocultadas sob uma camada de cera, e até da utilização de tintas invisíveis sobre as cascas de ovos cozidos.

No entanto, naquele período os usuários dessas artimanhas para enviar mensagens não entendiam que ocultação não é sinônimo de segurança.

Essa noção começa a aparecer quando a criptografia se torna mais difundida por causa de uma outra necessidade, a de se comunicar com exércitos sem precisar temer a interceptação de mensagens.

Os impérios que desejavam mandar mensagens as mais seguras possíveis para além das suas fronteiras teriam que aprimorar muito mais a sua criptografia do que a sua esteganografia. 

Imagine que um rei, vamos chamá-lo de Sir Nicolar II, quisesse enviar uma mensagem para o seu general, Theodoro, no front de batalha. Na mensagem, ele colocaria as seguintes ordens e instruções para o ataque: 

General Theodoro, venho por meio desta comunicação oficial trazer as instruções para seu ataque que deve se iniciar amanhã. Ao nascer do sol, uma tropa atacará a cidade dos nossos inimigos pelo Sul e isso vai distraí-los. Nesse momento, você deve levar seus homens para iniciar o ataque ao Norte, que estará totalmente desprotegido.

Dentro da cidade inimiga, temos um infiltrado que vai facilitar o seu acesso para entrar pelos portões da cidade. Isso deve tornar a sua missão a mais fácil possível e, com essa estratégia, seremos vencedores.

Sir Nicolar II

Veja que, se essa única mensagem fosse interceptada, uma série de informações cruciais, que significariam a vitória de Sir Nicolar II, agora seriam a vantagem do inimigo. Isso poderia causar a derrota das tropas do rei e, consequentemente, a batalha seria vencida pelo outro lado.

É por esse tipo de necessidade que a criptografia nasceu, para tornar mensagens como essa, de Nicolar II, ininteligíveis para o inimigo, mas compreensíveis para seus generais.

Hoje em dia a criptografia tem o poder de não apenas garantir comunicações secretas entre pessoas ligadas a governos, mas também entre pessoas comuns.

Para além disso, o movimento cypherpunk defende o uso da criptografia como uma forma de dar mais poder aos oprimidos (os cidadãos) frente aos opressores (o Estado).

Se a criptografia começou como uma forma de ajudar exércitos e governos a vencer guerras, hoje ela tem no bitcoin o seu principal expoente na tentativa de dar mais poder às massas, tirando a prerrogativa de ligação entre o dinheiro e o Estado. 

Forte abraço, 

André Franco

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