Viesados pelo passado

Como seres humanos, não estamos livres dos nossos vieses ou da nossa própria personalidade, mesmo que tentemos lutar contra isso.  Imagine uma pessoa extremamente desorganizada que tenta mudar essa característica durante toda sua vida.  Até que, quando muda, mesmo que parcialmente, passam a irritá-la certos tipos de desorganização.

1984, CICLOS DE MERCADO, HALVING E MEUS (SEUS) VIESES

Como seres humanos, não estamos livres dos nossos vieses ou da nossa própria personalidade, mesmo que tentemos lutar contra isso. 

Imagine uma pessoa extremamente desorganizada que tenta mudar essa característica durante toda sua vida. 

Até que, quando muda, mesmo que parcialmente, passam a irritá-la certos tipos de desorganização.

A repulsa por aquilo que já se foi no passado é herança que não deixará de existir. Mesmo lutando contra seu perfil, suas respostas ao ambiente são resultado da sua antiga persona. 

Ter esse autoconhecimento é fundamental para não cometer bobagens na sua vida financeira. 

Ser confiante demais o fará acreditar em sua capacidade muito além daquilo que condiz com a realidade. 

Por outro lado, superestimar os riscos de uma operação nunca o fará tirar o dinheiro da poupança. 

Somos frutos das nossas experiências, do nosso contexto presente e também dos vieses intrínsecos que possuímos e, às vezes, nem sabemos. 

Por exemplo, meus pais são da geração que viveu a hiperinflação no país e para a qual deve-se mitigar todo risco possível. 

Aquele ambiente de remarcação diária de preços incutiu neles uma cultura de compras grandes no mercado para estocar alimentos e fez com que não saíssem da poupança até recentemente. 

Foi só depois de muito conversar com minha mãe que a convenci a investir, primeiro em um CDB de seis meses, depois em uma LCI de 1 ano, até conseguirmos chegar às ações. 

Foi uma construção pouco a pouco que só evoluiu de forma positiva dado o cenário econômico local favorável. 

Minha família experimentou bons ganhos e mudou suas convicções a respeito de risco e retorno, que, assim, se tornaram seu passado mais recente. 

Aposto que, se tivéssemos vivido alguma grande crise nesse caminho, as premissas a respeito de investimento seriam diferentes para meus pais. 

O meu caso foi distinto; nunca enfrentei escassez de recursos ou instabilidade financeira como viveram meu pai e minha mãe antes do plano real. 

Meu mundo foi e é majoritariamente de abundância e o risco para mim sempre tem gostinho de oportunidade de ganho, e não de perda. 

Então, com a idade com que meus pais começaram a fazer a caderneta de poupança na Caixa Econômica, eu já estava dando meus primeiros passos em ativos de risco como ações, opções e criptomoedas. 

Outro tempo, outro contexto, outro investimento. 

Minha visão é principalmente otimista e meus vieses apontam para um mundo melhor hoje se comparado com 50 anos atrás, e que será ainda melhor em 2070. 

Parecida com essa análise de nossas inclinações pessoais é a de algumas projeções rasas sobre o que o halving do bitcoin pode causar no preço do ativo. 

O halving é a diminuição de oferta do bitcoin pela metade a cada quatro anos. A condição é pré-programada e inalterável no código original. 

Esse choque de oferta, para uma parte dos investidores, que acredita na alta do mercado, deve ser responsável por uma futura pernada do ativo e uma nova criptoeuforia. 

Pelo fato de possuirmos apenas dois outros eventos similares, o halving de 2016 e o de 2012, não existe perspectiva estatística que aponte algum resultado. 

A realidade é que o bitcoin está em tendência de alta desde que foi criado e os vieses daqueles que viveram os bull markets pós-primeiro e segundo halving os fazem acreditar na causalidade dessa correlação com duas amostras apenas. 

No entanto, correlação não pode ser encarada como causalidade, ou você terá que acreditar que o uso do Internet Explorer leva a assassinatos.

 


Se bem que usar o navegador faz você querer matar alguém. Ba dum tss. 

Mas voltando à questão do halving, esses vieses apenas me fazem crer em uma profecia autorrealizável de que a criptoeconomia terminará em um patamar melhor do que começou. 

Se todo mundo acreditar que esse mercado vai subir, então, ele realmente sobe. 

O contexto joga a favor da ideia de abundância e de futuro promissor. 

Da mesma forma, mas na contramão do otimismo, o livro “1984”, de George Orwell, não teria sido um sucesso se fosse publicado antes das duas guerras mundiais. 

Em um mundo pós-nazismo, o medo de uma ameaça totalitária era generalizado e a ideia de um Big Brother vigilante que proibisse qualquer originalidade ou pensamento próprio era imaginável e palpável. 

Novamente, o contexto joga o pensamento médio para uma catástrofe e não para a bonança. 

Por isso, na hora de analisar o halving e os seus efeitos, prefiro não crer nas teses baseadas em um otimismo passado e procuro ser o mais pragmático possível. 

Esse é um evento programado e que, naturalmente, já trouxe reflexos aos preços se os mercados são realmente eficientes e incorporam as notícias às cotações. 

Dito isso, o ano de 2020 permanece promissor para os criptoativos. A possibilidade de lançamento da criptomoeda do banco central chinês e também da libra deve trazer novos olhares para o mercado. 

O aval de um banco central e de uma empresa com bilhões de usuários para a criptoeconomia é uma melhor tese de investimento do que apenas o halving. 

Forte abraço, 

André Franco

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