Boas notícias são... boas notícias

Esta é uma história absolutamente verdadeira. Lá se vão uns belos 12 anos — embora pareçam uns 50. Reproduzo os diálogos entre aspas, sabendo que talvez não estejam aqui ipsis verbis.

 
"That should (but won’t certainly) lead to V- or U-shaped financials for most companies. (…) The markets are being, and will continue to be, affected by these sorts of market players getting squeezed and forced to make market moves because of cash-flow issues rather than because of thoughtful fundamental analysis. We are seeing this in very unusual and fundamentally unwarranted market action. Also, what’s interesting is how attractive some companies with good cash yields have become, especially as many market players have been shaken out.” 
Ray Dalio, 03/03/20

Esta é uma história absolutamente verdadeira. Lá se vão uns belos 12 anos — embora pareçam uns 50. Reproduzo os diálogos entre aspas, sabendo que talvez não estejam aqui ipsis verbis. Se for o caso, é por mera incapacidade da memória, não pela decisão deliberada de alterar os fatos ou dar contornos hiperbólicos às conversas. Seja como for, o espírito está preservado na íntegra.
 
Eu trabalhava numa gestora de recursos focada em ações, lá pelos idos de 2008, mazelas do subprime. Valorizo a época, importante para criar casca, calejar as mãos e deixar as costas marcadas de tanto apanhar. As cicatrizes são úteis e conferem vantagens frente às peles de bunda de neném dos filhos do bull market iniciado em janeiro de 2016. Não que aquela fosse a minha primeira crise. Para quem começou com ações no final dos anos 1990, já colecionava um bom álbum de figurinhas: Malásia/Tailândia (1997), LTCM/Rússia (98/99), Nasdaq (2000/01), Argentina (2001), apagão (2001), eleição do Lula (2002)… Mas a quebra da Lehman foi a quebra da Lehman.
 
A ação favorita do gestor à época era uma small cap de bens de capital altamente alavancada. Some-se a isso que outro grande acionista da respectiva empresa à época era a GWI. Desnecessário dizer o que lhe aconteceu depois daquele 15 de setembro de 2008. Combinação altamente explosiva, claro. A despeito de vários alertas do time de análise à época, o gestor era, por assim dizer, se me permite o eufemismo, um sujeito de bastante convicção, sendo difícil demovê-lo daquela ideia — ou de qualquer outra. Mas como manda quem pode, obedece quem tem juízo — e eu sempre tive por hábito respeitar hierarquias e processos —, lá estávamos nós com aquele mico na mão, embora, claro, internamente fugíssemos desse termo como o diabo foge da cruz.
 
Alguns meses e muitos resgates depois, nosso gestor teve uma brilhante ideia. Ele tentaria vender a posição na respectiva pequena notável para outro grande gestor (muito maior e relevante), também acionista do caso. “Vou oferecer-lhe meu lote. Mas eu conheço o sujeito e sua sagacidade. Não posso simplesmente chegar lá e dizer que quero vender. Ele vai perceber. Então, já sei: vou dizer que quero comprar o lote dele, falando de um alto potencial a curto prazo. Ele vai achar, portanto, que a ação vai subir e querer comprar. Daí eu vendo pra ele. Bingo!”
 
Achei bizarro, evidentemente. Mas, de novo: manda quem pode, obedece quem tem juízo. Até tentei argumentar que talvez não fosse propriamente uma estratégia convincente. Fui amassado no contra-argumento. Lá fomos nós a pé caminhar pelo Itaim.
 
Chegamos, como sempre, pontualmente à reunião. Esperamos cerca de 10 minutos até que entra o potencial comprador do nosso lote na sala. Para meu constrangimento, entrou o grande gestor, acompanhado de um exército. Vieram ele, dois analistas e sua advogada — “meu Deus, pra que tudo isso? A gente só vai conversar”, desabafei comigo mesmo, sob leve desespero.
 
Apresentações feitas e formalidades cumpridas, lá foi meu chefe apresentar seu plano infalível para o ser mitológico do outro lado da mesa, que fingia ouvir interessada e atentamente. Ele era rápido, articulado e inteligente, de modo que conseguiu condensar aquilo em menos de meio minuto. 
 
Depois de um ensurdecedor silêncio de cerca de 10 segundos, que me pareceram umas oito horas, veio a resposta para o pitch, calma, serena e avassaladora: “Agradeço sua bela apresentação. Muito convincente e estimulante. Mas me deixe ser sincero aqui. Olha, eu comprei essa ação nem sei muito bem o porquê. Hoje, representa menos de 0,5% do meu fundo. É completamente irrelevante para mim. Não vale o tempo do meu analista estudar. Então, não compro, nem vendo. Obrigado.”
 
Em um minuto e 45 segundos, a reunião estava terminada. Eu queria me levantar e ir embora, correr para casa. A humilhação moral, intelectual e financeira já me parecia suficiente. Mas ao nosso gestor não bastou. Então, para minha devastação completa, ele emendou: “Ah, então, só pra eu não perder a viagem, me dá uma palhinha de Hypermarcas. O que você está achando?”.
 
A morte seria melhor naquele momento. Queria enfiar a minha cabeça sob a mesa. Dado que isso pareceria, no mínimo, um pouco heterodoxo, apelei para o banheiro. “Desculpe interromper, mas onde fica o toalete?” Ah, foi mal, mas eu não presenciaria mais aquilo. Fiquei no banheiro uns 15 minutos. Quando voltei, já estavam se despedindo, para meu alívio.
 
Aquilo tudo foi patético. Ora, se a ideia era vender a ação (e não comprar) por que não apresentar isso de forma transparente e simples ao potencial comprador? Inventar uma história maluca sob uma pretensa (e idiota) ideia de “tática de negociação”, para despertar o interesse alheio? Aquilo obviamente seria percebido em dois minutos — como de fato foi. Se alguém quer comprar uma ação, não desenha na frente do comprador um cenário magnífico iminente àquela empresa.
 
A Navalha de Occam está aí como um princípio da parcimônia há muito tempo. Por que adicionar complexidade e elucubrações, entidades multiplicadas às explicações mais simples e efetivas, sendo que podemos falar de forma mais minimalista e reducionista? 
 
Se queríamos vender o tal lote, talvez fosse mais eficiente simplesmente jogar a real, aceitando algum desconto para vender o bloco para o potencial comprador. Simples assim. Não há outra saída, mágica, gol de placa, criação maquiavélica.
 
Eu lembrei desse caso ao ver o comportamento dos mercados na véspera. As Bolsas em nível global fecharam em forte queda após o Fed cortar a taxa básica de juro norte-americana em caráter emergencial em 0,5 ponto percentual. A interpretação predominante foi de que, se o banco central dos EUA fez isso, é porque sabia de algo além. O super poderoso Federal Reserve estaria vendo uma economia americana muito combalida. Portanto, más notícias. Vamos vender.
 
Seguindo essa mesma linha de raciocínio, teríamos, sob rigor metodológico, algo como:
 
1 — A reforma da Previdência do Estado de São Paulo foi aprovada. Péssimo. Sinal de que as contas públicas do Estado eram piores do que imaginávamos. 
2 — A atividade industrial chinesa volta a se recuperar depois de semanas parada. Ruim. Desespero para voltar logo com a atividade econômica, dado o claro caos que se abateu sobre os agentes econômicos.
3 —Joe Biden saiu vencedor da Super Terça nos EUA, desbancando Bernie Sanders. Má notícia, porque agora Bernie Sanders vai ser muito agressivo e adicionar volatilidade ao noticiário.
 
E, claro, por corolário à mesma reação ao Fed ontem:
4 — O Copom sinalizou em comunicado claramente a intenção de reduzir a taxa Selic. Vamos correr para as montanhas. Economia brasileira muito parada e medo de contágio.
 
Às vezes, as interpretações mais simples são as verdadeiras e efetivas. Boas notícias são boas notícias. Cada vez mais, as coisas, do ponto de vista estrutural e fundamental, apontam para a compra de ações. Intensificamos o já presente cenário TINA (there is no alternative). Estamos, de certo modo, reféns do sistema. Lá na frente, a conta vai chegar, provavelmente com algum choque geopolítico ou conflito social disparado pela ampliação da desigualdade. A interrupção do bull market, em termos estruturais, não me parece provável a partir do coronavírus. E ela ficou um pouco mais longe a partir das medidas adotadas desde a última terça-feira.

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