Mato a razão, sou agora o mais tranquilo dos otários

Há um profundo senso ético embebido em qualquer negociação entre partes compradora e vendedora.

Há um profundo senso ético embebido em qualquer negociação entre partes compradora e vendedora.

It's not ALL ABOUT NUMBERS.

Para alcançarmos a utópica riqueza das nações, dependemos de uma bela teoria dos sentimentos morais.

Imagino-me na seguinte situação.

Quero comprar uma casa pelo menor preço possível, maximizando com isso meu "excedente do demandante" (whatever it means).

Do outro lado do balcão, a Senhora Regina deseja vender sua casa pelo maior preço possível, maximizando seu "excedente do ofertante" (pois é, essas são expressões que os economistas se orgulham de usar no dia a dia).

Regina está pedindo 800 mil pela casa.

Eu topo, até acho que vale, mas penso em oferecer 600 mil, para fechar em 700 mil. Técnicas de negociação, sabe? 

Por que não ofereço, por exemplo, 400 mil? Sinto que seria ofensivo. Não quero ofender a vendedora, não é legal. 

Assim, enquanto sigo em frente por este corredor sem janelas, a luz vai ficando cada vez mais escassa, os olhos não me servem mais, passo a me referenciar no tato. Começo a atravessar a fronteira rumo aos sentimentos morais.

Já prestes a formalizar a proposta de compra de 600 mil, chamo o corretor para tomar um café, e fico sabendo o motivo por trás da venda, a raison d'être que move a alma da ofertante.

Regina tem uma filha que acaba de descobrir que está com câncer. O plano de saúde não cobre, o tratamento é caro, e o único patrimônio de que a família dispõe é a referida casa. 

O cálculo de Regina para se chegar ao preço de venda (800 mil) deriva da soma rigorosa entre o custo estimado do tratamento (300 mil) e o custo de se comprar um apartamento (500 mil) já mapeado para se mudarem.

O corretor me diz: "Eu nem deveria estar te contando, você nada tem a ver com isso, não é um peso sobre os seus ombros. É só uma curiosidade, um fato diverso. Todos temos dificuldades na vida. Eu tenho as minhas, tenho certeza que você tem as suas".

Mesmo que tentasse (estupidamente), não consigo me sentir indiferente àquela informação. Deito a cabeça no travesseiro, é impossível dormir.

Pego-me pensando se um corretor médio, de maneira oportuna, transmitiria narrativas tristes capazes de maximizar seu "excedente de corretagem".

Mas foda-se. Eu conheço o cara há tempos, não é um corretor médio. E, mesmo se fosse o caso, isso é um problema dele. Se ele quer ser um merda para ganhar mais dinheiro, será um dinheiro amaldiçoado. É como as coisas funcionam.

Não posso mais oferecer 600 mil, mesmo ciente de que Regina toparia facilmente valores abaixo de 800 mil (seu "preço de reserva"?), por um misto de necessidade e desespero.

Compactuo com os 800 mil e mato com isso o homo economicus que existia em mim. Sou um perfeito otário à luz da racionalidade financista. Mas agora sou um otário capaz de dormir tranquilo. Estou contente com o negócio que fiz com Regina.

Dias depois, quando abro o home broker, visito a pedra. Dentre todas aquelas milhares de ordens de compra e venda, quem será Regina? Quem sou eu ali?

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