O peru de Natal — mas já?

Caro Papai Noel, Tudo bem? Como estão as coisas por aí? Tempos estranhos, não é mesmo. Acima de tudo, espero que esta carta o encontre com saúde. Ela foi devidamente higienizada.

Caro Papai Noel, 
 
Tudo bem?
 
Como estão as coisas por aí? Tempos estranhos, não é mesmo. Acima de tudo, espero que esta carta o encontre com saúde. Ela foi devidamente higienizada.
 
Sabe, fiquei pensando como você está se adaptando a essa história de quarentena. Falaram que os países nórdicos não entraram tanto nessa, né? Sei lá, você é grupo de risco, resolvi perguntar. Não se ofenda, seu aspecto e sua alma ainda são joviais. 
 
Descobri agora, olhando para a tela, que parece um pouco cedo para eu te escrever. Suspeito que me perdi um pouco no tempo. Os dias são todos tão iguais e cada semana é uma eternidade. No mês passado, uns dois anos atrás, a Bolsa chegou a perder os 13 mil pontos em dólar… Para mim, pela minha contagem, já estamos no 25 de dezembro, chutando por baixo. 
 
Eu nunca te pedi nada. Mentira, já te pedi um monte de coisa. Mas vamos combinar que nem sempre o senhor foi um bom ouvinte, interlocutor generoso. Não, não. Pode ficar tranquilo. Não reclamo, não. Soy un hombre conformado, como diria o Dinho, dos Mamonas. É só o senhor dar aquela compensada neste ano que está tudo certo.
 
Ah, sei. Imagino. Está difícil para todo mundo neste ano mesmo. O senhor tem razão. Aliás, você, digo, o senhor, perdoe a intimidade, já adotou a prática do e-commerce? Minhas favoritas são Magalu e Lojas Americanas. E o senhor? Nossa, que bom saber. Também não gosto de Via Varejo, não. Pode subir na especuleta, mas acho a empresa ruim e o turnaround complexo. Management que faz Live para dar puxeta em ação antes do follow-on me desperta certo desgosto. Subir ou cair em Bolsa é outra história. No curto prazo, os cassinos premiam alguns vencedores. Viu Hertz por exemplo? Que coisa maluca. E que azar do Carl Icahn.
 
Veja, eu prefiro jogar no quality de Magalu e no valuation descontado de LAME, que me parece ter acertado no novo CEO e integrou bem a operação. Fico feliz em saber que concordamos nessa. Gosto da sua perspectiva onisciente.
 
Está precisando de uma ajuda nas compras? Não, não. Peraí, acho que o senhor não entendeu. Desculpe, não conte comigo. Ao contrário. Estou aqui na condição de pedinte, de ajudado, não de ajudante. Acho que o senhor está trocando as bolas. Tipo aquele filme do Eddie Murphy. Já viu? Meu pai adorava.
 
Calma, o senhor está meio tenso. Não precisa ficar bravo também. Eu entendo, eu entendo. Está todo mundo meio irritado trancado em casa. O homem é um ser social — será que o senhor pertence ao grupo? Bom, sei lá. Viaja tanto, deve estar particularmente difícil para o senhor. Eu tenho uma boa notícia em meio a isso tudo. Na verdade, são duas. Estou com crédito, hein? Vai contando…
 
Pelo que parece, sua logística nos EUA vai ser facilitada. Vai dar para distribuir uns presentinhos por lá com mais tranquilidade. Estão falando sobre um novo pacote fiscal da ordem de US$ 1 trilhão (agora só se fala em trilhão, reparou?) focado em infraestrutura. Estradas, pontes, ferrovias, etc. Acho bom para siderúrgicas e mineradoras.
 
Perdoe desviar um pouco do assunto, mas queria ouvir sua opinião. Se Donald Trump está convicto numa recuperação em V da economia norte-americana, conforme ele mesmo postou no Twitter — aliás, o senhor tem Twitter? — no dia da divulgação do último relatório de emprego, por que mandar mais estímulo fiscal? Não acha que o mercado agora pode ir para uma espécie de “reflation trade”, comprando esses nomes que podem se beneficiar de um aumento do preço de commodities e se hedgeando em proteções clássicas contra a inflação? Esse é um risco perigoso, justamente porque ninguém está preparado para ele.
 
Uma pena que o senhor não tenha opinião a respeito. Ah, sua torcida já vale alguma coisa. Ao menos, deveria valer. No seu lugar, eu também estaria torcendo para uma inflação bem controlada, sem dúvida. Fico imaginando a manchete da mídia golpista: “Inflação de brinquedos bate recorde”. Seria horrível para o seu padrão de consumo. Esse, sim, um verdadeiro golpe.
 
A outra boa notícia é que, se o senhor precisar de alguma ajuda neste ano, acho que pode bater lá no Fed. Se passar voando com suas renas perto do BC dos EUA gritando “Jerônimo!!!”, suspeito que eles atendam. Os caras estão comprando qualquer coisa. O emprestador de última instância virou comprador de primeira instância. Ontem, avançaram sobre cestas de dívidas de empresas norte-americanas. Se precisar, não duvido que acabem comprando ações diretamente agora. Sim, eu sei que eles negaram, mas é o que lhes cabia naquele momento. Daqui a pouco vão para cima das Microcaps do Max…
 
Confesso achar isso meio estranho, tudo muito novo para mim. Às vezes, eu penso que é difícil ensinar truques novos a cães velhos. Em outros momentos, imagino ser o contrário: difícil ensinar truques velhos a cães novos. Não importa. Mas pense no senhor mesmo. A lógica — e a ética — são simples: foi um bom menino ou boa menina, ganhou presentinho. Tem uma relação esforço, recompensa aí; uma espécie de risco e retorno. Se fizer besteira, é punido com a ausência do brinquedo e um Natal triste, embaraçoso frente aos coleguinhas. 
 
O Howard Marks tem uma frase interessante, arrisco dizer que o senhor concordaria com ela: capitalismo sem falência é como catolicismo sem inferno. Não funciona. Sabia que concordaria.
 
Seu ponto é válido, sem dúvida. A ausência do Fed seria pior. Mas no momento em que ele atua de forma tão intensa e indiscriminada, alimenta duas coisas. A primeira é aquilo que Mohamed El-Erian tem chamado de “win/win” situation (ganha/ganha). Mercado pensa assim: ora, se a economia se recuperar e as coisas forem bem, então as coisas foram bem; é o cenário positivo e devemos comprar ativos de risco. E se as coisas forem mal, o Fed vem nos salvar; então, nada cai e devemos comprar ativos de risco. 
 
No curto prazo, funciona, mas pode criar bolhas especulativas preocupantes, a sensação de que nunca cai — basta olhar a internet e o senhor vai ver o quanto de gênio achando que nunca cai surgiu desde março. E também salvar empresas quebradas, com problemas de insolvência, não apenas de liquidez. Um país de companhias zumbis, que não geram caixa sequer para pagar dívidas, mas não morrem porque o Fed as salva. Temos uma produtividade geral baixa e crescimento econômico condenado.
 
Seja como for, o apetite ali parece infinito. Acho que o “whatever it takes” pode ser estendido ao Natal das criancinhas e aí o senhor é o grande beneficiado. Tem a sua própria “put Fed”.
 
Do meu lado, queria mesmo era pedir uma bola de cristal. Mas achei que o senhor não toparia. Toda aquela história de livre-arbítrio e tal. Não pode combinar com conhecer o futuro. E, para ser sincero, eu também não acho que eu mereça. De novo — eu sei, já é a enésima vez —, eu não fui um bom menino. Essa história de bom mocismo é careta demais, chata e não combina com as ambivalências humanas. Tenho certeza de que, no fundo, o senhor sabe. Só não assume. Não precisa contra-argumentar. Já sei sua listinha de pontos a rebater. Eu estou mais para a música Bad Company, da banda Bad Company: “And I can’t deny it”.
 
Como o lance da bola de cristal não vai rolar e jamais saberemos o futuro com certeza, pensei em pedir o que apelidei de “combo da incerteza”. O senhor me manda uma combinação de BOVV11 (ou uma boa carteirinha de ações), B50, dólar e ouro. Se der para falar com a B3 em favor de um ETF de fundos imobiliários, também seria legal, mas deixo a seu critério. Turma lá é bem competente e o Gilson é brilhante. Fala com ele. Acho que tem espaço e seria um grande avanço para o mercado. Vai precisar desenvolver o short nesse segmento e falar com a Receita para melhorar a questão tributária, mas dá samba.
 
Com essas coisas, a gente fica bem diversificado e consegue reduzir bem o risco da carteira, sem se expor a riscos demais. Acho uma boa forma de evitarmos ser o peru de Natal. Pelo que ando vendo por aí, suspeito que a ceia deste ano será farta. Há muita gente pensando que Bolsa só faz subir. O senhor já passou por muita coisa e sabe, como eu, que não é bem por aí. Por favor, ajude uma criança a ter um Natal mais feliz. Ou, ao menos, para não ser servida como jantar.

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