Preocupações centrais: a proporção áurea dos investimentos

Lembra da frase de Milton Friedman já citada aqui prospectivamente? “Não há nada mais permanente do que um gasto temporário do governo.” Na era das desorganizações exponenciais, vamos da perspectiva à materialidade num piscar de olhos.

Lembra da frase de Milton Friedman já citada aqui prospectivamente? “Não há nada mais permanente do que um gasto temporário do governo.” Na era das desorganizações exponenciais, vamos da perspectiva à materialidade num piscar de olhos.
 
Abro o Estadão, que na minha terra sempre foi um jornal de direita (ou já transformaram a família Mesquita em comunista?), e leio que parlamentares do Centrão, agora aliado do presidente Jair Bolsonaro, pretendem “tornar permanente o auxílio emergencial de R$ 600 a informais e de ampliar o valor do benefício pago a empregados com carteira assinada”.
 
Em paralelo, enquanto aguardamos o esperado veto do presidente para o reajuste do funcionalismo público como contrapartida ao pacote de socorro a Estados e municípios, o relator do projeto alerta para a posterior derrubada do veto no Congresso.
 
A fisiologia é incompatível com o liberalismo, pela própria natureza de cada um. Suspeito que Paulo Guedes, que certamente leu Friedman em verso e prosa, já antevia o problema.
 
Vamos falar de coisas mais legais. 
 
O último memorando de Howard Marks, o brilhante gestor da Oaktree e tido como “guru de Warren Buffett”, leva o título de “Uncertainty” (Incerteza). Os mais informados são justamente aqueles que menos sabem sobre a pandemia e seus desdobramentos sobre a economia e os mercados. A ignorância apenas parece uma benção. Mas as aparências enganam e ela vem cobrar seu preço depois, fora do timing do day trade.
 
Recomendo a leitura de artigo do Dr. Opher Caspi, de título: “The Dangerous Illusion That Governments Know How to Fight Coronavirus”, sobre as esperanças ingênuas de que governos sabem como lidar com o combate à pandemia — por aqui, temos dúvidas até sobre o que são ou não atividades essenciais, apesar de meu histórico problema de unha encravada quase me fazer compactuar com a ideia da impossibilidade da podologia se manter fora dessa lista. Osmar Terra já está no aquecimento? 
 
Em meio a tanta incerteza e incapacidade de enxergar o futuro, “que a arte me aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba. E que ninguém a tente complicar, pois é preciso simplicidade para fazê-la florescer”. Oswaldo Montenegro me leva a Leonardo da Vinci: a simplicidade é a maior das sofisticações.
 
Nesses momentos, eu penso em uma das ideias obsessivas de um dos maiores gênios da história: tentar entender a natureza a partir da observação de si mesmo, ligando o microcosmo do homem ao macrocosmo do planeta. Quando você olha para o “Homem Vitruviano”, é isso que está representado ali.
 
Num livro sobre desenho, Toby Lester escreveu assim: “é um autorretrato idealizado no qual Leonardo, reduzido à sua essência, tira as próprias medidas e, ao fazê-lo, personifica um desejo humano atemporal: o de que talvez tenhamos o poder de compreender como nos encaixamos no grande esquema das coisas. Pense na imagem como um ato de especulação, uma espécie de autorretrato metafísico no qual Leonardo — um artista, filósofo nato e representante de toda a humanidade — estreita os olhos para observar a si mesmo e tentar desvendar os segredos da própria natureza”.
 
Em sua biografia, Walter Isaacson complementa: “O Homem Vitruviano de Leonardo é a materialização de um momento em que a arte e a ciência se combinam para permitir que a mente de um mortal pudesse abordar questões atemporais sobre quem somos e como nos encaixamos na grande ordem do universo. Também simboliza um ideal de humanismo que celebra a dignidade, o valor e o agente racional dos seres humanos como indivíduos. Dentro do quadrado e do círculo, podemos ver a essência de Leonardo da Vinci, e também a nossa própria, desnuda e de pé sobre a interseção entre o mundano e o cósmico”.
 
Se quisermos, sob a ótica de investidor, entender a pandemia e como sairemos dela, precisaremos olhar primeiro para nós mesmos. As questões essenciais sobre nossos investimentos são, acima de tudo, nossas. Não adianta terceirizar responsabilidades.
 
Culpar a imprensa por notícias que contrariam suas posições em Bolsa em nada vai ajudar — a reportagem, como sugere a etimologia, só reporta; fatos e dados. Análise e torcida representam uma combinação perversa. Animadores de torcida são ainda mais deletérios. 
 
Manter uma postura excessivamente gananciosa quando o cenário requer proteção e preservação patrimonial também tem pouca serventia. Se precisamos caber num quadrado, não há porque desenharmos uma forma de triângulo. A realidade não vai se adaptar a vontades particulares; são elas que precisam se adaptar à realidade. O pior investidor é aquele que não quer ver. 
 
Se o mundo caminha para juros cada vez menores ou até mesmo negativos, não adianta esperar viver num mundo de altos retornos. O rentismo acabou, já era. Se você acredita na eficiência dos mercados (como eu acredito), entende que, para não haver arbitragem (lucros sem risco, sem precisar colocar o próprio dinheiro), um determinado ativo vai pagar o mesmo retorno do ativo livre de risco mais o prêmio de risco associado ao respectivo ativo. Ora, se a taxa de juro do ativo sem risco cai (ou até vai para o negativo, como vemos agora no mundo), todos os demais retornos vão cair também.
 
Tenho me preocupado com o retrocesso que vivemos nos últimos dois meses, em como muitos investidores deixaram de olhar para o microcosmo de si mesmo e como nos encaixamos no macrocosmo da natureza, mantendo expectativas imateriais por ganância, torcida ou ideologia. 
 
Na minha adaptação de John F. Kennedy, vai assim: “não pergunte aos seus investimentos o que eles podem fazer por você; mas, sim, o que você pode fazer por eles”,
 
Voltando a Leonardo da Vinci, sempre uma rica inspiração, pondero que, por trás de toda meticulosa pintura do Homem Vitruviano existe a ideia da proporção áurea. O homem, o círculo, o quadrado e todas as suas composições, precisamente construídas. Essa é a beleza da coisa. 
 
Qual a proporção áurea dos seus investimentos? Essa é a pergunta-chave. Enquanto os cheerleaders estiverem marketando uma ou outra ação, torcendo por elas e cantando gritos de guerra, essa ação continuará incólume. Ela não liga para os nossos sentimentos.
 
Neste momento, estamos todos nós, financistas, patrocinando uma experiência com 200 mil pessoas que acabam de chegar à Bolsa com R$ 1 mil, segundo o próprio presidente da B3, sob os aplausos da imprensa especializada: “Brasileiro vai às compras mesmo com crise”. Há elogios na matéria ao comportamento do investidor comum, supostamente mais resiliente e preparado agora frente a crises anteriores. Então, isso significa que seu nível de sofisticação, preparo e resiliência superou aquele dos profissionais, porque, enquanto a pessoa física comprou em março e abril, gringo e institucional local venderam. 
 
Sejamos claros aqui: a pessoa física não comprou por ser mais educada ou sofisticada financeiramente. Isso é uma contradição em termos. O leigo mais sofisticado do que o profissional, faz sentido para você? A verdade é que o investidor de varejo está alimentado pela ganância, por um sentimento de que a queda recente criou uma grande oportunidade, pelo clássico “fear of missing out” (medo de ficar de fora) e pela frustração em termos ficado todos órfãos do CDI, para usar a expressão do genial Luis Stuhlberger. Se a pessoa física não sacou ainda dos fundos é simplesmente porque ainda não houve tempo e porque não tivemos, ao menos por enquanto, uma nova correção significativa. Continuará assim se não for apenas uma correção passageira e, sim, um bear market mais longo? Eu, sinceramente, duvidaria. Desta vez não é diferente, me desculpe. Nós não vamos conseguir mudar a natureza humana.
 
Se você chega à Bolsa com R$ 1 mil ou menos, é quase inexorável seu excesso de concentração. Não há respeito a proporções mínimas de uma carteira equilibrada. Enquanto isso, há um silêncio generalizado. Qual youtuber terá coragem de dizer aos seus internautas: “Desculpe, o melhor que tenho a fazer, para o seu caso, é recomendar a compra de BOVV11”?
 
Vivemos uma carência de liderança, de heróis, de ídolos e de financistas a seguir. Cada geração tem o Leonardo da Vinci que merece. Antes de ser tomado pela ganância e pela animação dos cheerleaders, pondere: enquanto o investidor pessoa física comprou, gringo e institucional local venderam. Follow the (smart) money.
 
Se houver uma correção de 10% a 15% da Bolsa, os recém-chegados vão segurar a onda? Quem pagaria essa conta? Alguém manda o boleto para a Fintwitt?

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