Quem são os verdadeiros inimigos?

Maria Homem: “Eu talvez seja mais comedida ou clássica, pois gosto de pensar que muitas vezes 'in medio stat virtus', a virtude está no meio”.

Maria Homem: “Eu talvez seja mais comedida ou clássica, pois gosto de pensar que muitas vezes 'in medio stat virtus', a virtude está no meio”.
 
Contardo: “Sim, 'in medio stat virtus’, mas em algum momento temos que escolher. É a famosa história: quem é o inimigo? Como diria Mao Tsé-Tung [risos], é preciso sempre reconhecer a contradição principal e a contradição secundária. Temos que saber qual é a contradição principal, ou seja, quem são os verdadeiros inimigos”.
 
Esse é um trecho do livro “Coisa De Menina? Uma Conversa Sobre Gênero, Sexualidade, Maternidade e Feminismo”, que ganhei de presente da Maria Homem e do Contardo Calligaris. Gostei bastante, embora meu favorito ainda seja o “Cartas a um Jovem Terapeuta”, do Contardo, que ganhei do Rodolfo. 
 
Por enquanto, guarde essa pergunta: quem são os verdadeiros inimigos? O que pode, na real mesmo, atrapalhar seus investimentos?
 
Ao longo de sua carreira, a ginasta Trinea Gonczar foi tratada 856 vezes por Larry Nassar, médico da seleção norte-americana de ginástica e especialista em disfunção do assoalho pélvico (perdoem-me pela possível atrocidade na tradução; o termo original é “pelvic floor dysfunction”), um problema razoavelmente comum para atletas como Gonczar. 
 
Em julho de 2017, Nassar foi condenado a 60 anos de prisão por pedofilia e abuso sexual. As acusações contra ele começaram pública e formalmente em 2015, envolvendo o abuso de ao menos 250 mulheres e crianças, numa dinâmica cujo início remete a 1992. Sob a desculpa de fazer uma intervenção médica, Nassar introduzia seus dedos nas cavidades vaginal e anal de suas pacientes. Como se tratava de um médico respeitado e sob a retórica de que aquilo fazia bem aos músculos da região pélvica e permitia melhor identificação da gravidade das lesões, por muito tempo o procedimento heterodoxo de Nassar foi visto pelas atletas apenas com certas dúvidas — não suficientes para alguma objeção, interrupção do movimento ou denúncia.
 
Aquilo era tão absurdo e vinha de uma pessoa aparentemente tão nobre que deveria mesmo fazer parte do tratamento. Se ele fosse grosseiro com a paciente ou tivesse hálito com teor etílico, possivelmente seria mais rápida e fácil a identificação da gravidade do problema. O fato de ser tão esdrúxulo e vir de quem vinha jogava a favor de Nassar, ainda que isso possa soar contraintuitivo.
 
Com efeito, muitas das atletas que haviam sido abusadas por Nassar chegaram a defendê-lo com entusiasmo. Quando uma de suas colegas de trabalho relatou o abuso perpetrado pelo médico, Trinea Gonczar saiu em defesa do profissional, afirmando que aquilo sempre acontecia com ela também, com naturalidade. Mesmo depois das primeiras acusações públicas contra Nassar, Gonczar continuou ao seu lado.
 
As evidências e as acusações contra Nassar se multiplicavam, mas, ainda assim, algumas de suas atletas se negavam a deixar de apoiá-lo. Isso só veio a mudar quando a polícia encontrou 37 mil (sim, é este mesmo o número) imagens de pornografia infantil no computador pessoal do médico.
 
Finalmente, Gonczar mudou de lado. No julgamento de Nassar, testemunhou: “I had to make an extremely hard choice this week, Larry. (…) I choose the girls, Larry. I choose to love them and protect them. (…) I always believed you until I couldn’t anymore. (Algo como: “Eu tive que fazer uma escolha muito difícil nesta semana, Larry. Eu escolho as meninas, Larry. Eu escolho amá-las e protegê-las. Eu sempre acreditei em você, até que não pude acreditar mais”.)
 
O que levou Trinea Gonczar a fazer uma avaliação tão errada de Larry Nassar? E por tanto tempo? E por que resistiu tanto em mudar de ideia mesmo diante de evidências acumulativas?
 
Em linhas gerais, essas são as perguntas que Malcolm Gladwell tenta responder em seu mais novo livro, “Talking to Strangers: What We Should Know about the People We Don't Know”. Por que avaliamos tão mal pessoas que não conhecemos ou que conhecemos apenas um pouco, deixando-nos influenciar por impressões e estereótipos?

Entre as melhores explicações, ele aponta o trabalho de Tim Levine, professor da Universidade do Alabama, ligado à batizada “Truth-Default Theory” — para mais detalhes, ver o artigo “Truth-Default Theory (TDT): A Theory of Human Deception and Deception Detection”.

Essa seria uma espécie de viés de, num primeiro momento (e talvez num segundo, num terceiro), sempre acharmos que nosso interlocutor está falando a verdade e sendo honesto. Estamos programados para isso. Poderia ser mais um dos famosos vieses das Finanças Comportamentais, agora tão queridinhas do mainstream da Faria Lima, muito embora ninguém me pareça falar com frequência a respeito, ainda que seja uma das maiores armadilhas no mundo das finanças — você vai acreditar no controlador da empresa cujas ações está comprando? Você vai acreditar no gerente do seu banco?
 
Talvez o leitor mais apressado possa correr logo para as conclusões e entrar na onda de apontar um comportamento irracional na tendência ao “default to truth”. A mim, porém, se trata apenas de mais uma perfeita demonstração de racionalidade, no sentido que Gerd Gigerenzer atribui à racionalidade, ligando-a à evolução darwiniana e à sobrevivência.  
 
A sociedade simplesmente não funcionaria sob níveis mínimos de confiança recíproca e apriorística. Seria inviável a comunicação social e a convivência se cada passo, cada palavra e atitude fossem enfrentadas com desconfiança. Viveríamos sob constante paranoia, enclausurados em nossas próprias casas, sob a desconfiança de que o vizinho está prestes a nos tungar. 
 
A maior parte das pessoas é mesmo justa, inocente e verdadeira. Sob honestidade e virtude são feitas a maior parte das relações e transações. Simplesmente, ao adotarmos a verdade e a correção como nosso default, estamos apenas optando pelo caminho de maior probabilidade. Seria muito custoso, em termos financeiros e temporais, estarmos sempre alertas para todos os cenários de possível mentira e ratagem, incluindo aí os casos de mais baixa probabilidade. 
 
Isso não significa sobremaneira que a prática não envolva riscos terríveis. Há a minoria disposta a se aproveitar, mentir, enganar, tirar vantagem. E ela se beneficia da tendência do interlocutor de tomar a verdade e a honestidade como default.
 
Neville Chamberlain era talvez o líder europeu do lado ocidental com maior proximidade de Hitler. Teve uma série de reuniões presenciais com o Fuhrer, de quem ouviu o compromisso formal de que os interesses do Terceiro Reich se limitavam à Tchecoslováquia. Acreditou naquilo, até ser surpreendido com a invasão da Polônia pela Alemanha nazista, que deu no que deu. 
 
Por que estou falando tudo isso?
 
Porque um dos maiores perigos para o investidor pode ser a tendência a “default to truth”, caso seu interlocutor queira se aproveitar da situação. Ele normalmente está do lado desfavorável da assimetria de informação e tem — como qualquer ser humano — uma tendência a acreditar no que está lendo ou ouvindo.
 
O interlocutor — seja ele o jornal lido pela manhã, o gerente do banco, o controlador da empresa investida — precisa ser encarado com ceticismo. A tendência ao “default to truth” pode acabar sendo um mapa errado, se o interlocutor quiser se aproveitar de você, se houver algum conflito de interesse nessa relação e se alguma taxa sub-reptícia estiver lhe sendo cobrada. 
 
E não ter mapa é melhor do que ter um mapa errado, como sabemos. 
 
O investidor leigo chega à Bolsa necessariamente cético, porque sabe exatamente de suas limitações e falta de conhecimento. Se encontrar um suposto especialista capaz de guiá-lo por esse mundo, pode acabar em seríssimos problemas, porque vai confiar naquele sujeito, sob a tendência ao “default to truth”. Não saber nada é melhor do que achar que sabe. O problema do mundo não são as pessoas que não sabem, mas aquelas que não sabem o suficiente, como diria Taleb.
 
Os lobos em peles de cordeiro são os verdadeiros inimigos. 

PS.: A Empiricus tem vários defeitos. Vários mesmo. Luto diária e obsessivamente para melhorar aqueles que identifico. Sei que há vários outros ainda que sequer fui capaz de perceber. Em contrapartida, temos ao menos uma virtude: aqui não há espaço para lobos em peles de cordeiro. Podem criticar nosso marketing, como, justamente até, foi feito em determinadas situações no passado. Mas algo não vão tirar de nós: aqui há uma relação honesta, sem nada escondido, com alinhamento entre nós e o investidor. Ele nos paga por uma ideia, nós lhe entregamos a melhor ideia que podemos. Tudo está sobre a mesa, da forma mais transparente possível, sem nenhuma agenda oculta. Hoje, lanço junto com o Rodolfo aquele que é o pacote mais completo e transparente que poderíamos servir numa bandeja ao investidor. Seja muito bem-vindo ao Masterplan 2020!

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