Tentando, inutilmente, pintar este cisne de cinza

Estamos em 2020 de eleições por aqui, vale lembrar.

Estamos em 2020 de eleições por aqui, vale lembrar.

Não parece tão impactante quanto os votos para presidente, governador, senador... Mas, ainda assim, é um evento de peso.

Por exemplo: o ano pode ser meio ao contrário de 2019, com muito acontecendo no primeiro semestre e pouco acontecendo no segundo. Prometidas reformas que não saírem até junho ficarão para o ano que vem.

Também é um 2020 de eleições presidenciais nos EUA, e isso, obviamente, manda no fluxo de todos os mercados.

Daqui até novembro, surgirão mais e mais especialistas em política americana, os Gugas Chacras da vida.

Da nossa parte, pedimos licença aos comentaristas de plantão e focamos em referências genuinamente científicas do contexto que antecede as eleições.

Ao dar uma olhada neste brilhante estudo feito por nossos amigos do NECSI, percebemos rapidamente que Trump precisa se esforçar muito nos tuítes polêmicos para não ser reeleito.

As probabilidades jogam largamente a seu favor.

Ao longo das últimas décadas, apenas dois presidentes americanos em exercício não conseguiram se reeleger: Jimmy Carter e Bush pai.

Ambos perderam um jogo ganho pelo mesmo motivo: "It's the economy, stupid!".

A economia com Trump não vai nada mal. Juros mantidos em patamares baixos, e mesmo alguma desaceleração do Payroll de repente é tida como natural, e até saudável.

Então, o mais provável é que Trump vença as eleições de novembro de 2020.

No entanto, conforme bem ilustraram os pesquisadores do NECSI, o papel do imponderável vem aumentando (o próprio Trump foi beneficiado por isso em 2016).

Entre a Segunda Guerra Mundial e a década de 1970, apenas candidatos centristas ganhavam o pleito, e com baixíssima margem de incerteza. 

Tudo se transformou radicalmente de Nixon para cá, como se o sistema político tivesse passado por uma mudança de fases análoga à de um canecão de água fria para fervente.

Em resposta à polarização crescente do eleitorado, os candidatos democratas e republicanos foram se distanciando cada vez mais, em movimento pendular, escancarando a boca da bifurcação que contemplamos no gráfico.

Diante desse novo equilíbrio, muito mais instável que o anterior, mesmo pequenas mudanças na opinião dos eleitores são perfeitamente capazes de alterar o nome a se eleger em questão de dias (novamente, Trump em 2016).

Logo, o favoritismo de Trump, embora bastante provável sob estatísticas de média e variância, torna-se muito mais incerto em termos de assimetria e curtose. Estamos estruturalmente sujeitos a surpresas dramáticas.

Recentemente, o ponto pacificador do mercado encontra respaldo na candidatura de Michael Bloomberg, incomparavelmente mais "market friendly" do que Elizabeth Warren.  

"Se Trump perder, agora perde para Bloomberg, que é um sujeito rico, previsível e civilizado."

Porém, o gráfico do NECSI sugere que a polarização radical evocada por Warren pode valer muito mais do que o bilhão de dólares que Bloomberg se propõe a gastar, do próprio bolso, para derrotar Trump.

O leitor mais atento já percebeu que tudo isso tem grandes implicações por aqui também. 

A esperança renovada na formação de um candidato de centro mais apto que Geraldo Alckmin e com mais tempo de preparo (Luciano Huck, João Doria, Eduardo Leite) pode estar exagerada, subjugando o poder desta nova e instável ditadura de extremos.

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