Cada um por si

Logo no início da quarentena, participei de uma live cujo tema eram as doações feitas por empresas e empresários destinadas a combater os efeitos da pandemia.

Logo no início da quarentena, participei de uma live cujo tema eram as doações feitas por empresas e empresários destinadas a combater os efeitos da pandemia.

Ainda estávamos no começo desta infindável jornada, uma travessia que marcará o ano de 2020 em nossas eternas lembranças.

“Achatar a curva”, “lockdown horizontal”, “lockdown vertical”, “taxa de transmissão”, “capacidade hospitalar”. Os temas debatidos eram os mesmos, todavia menos gastos. Hoje, depois de três meses que pesam como anos, a ciência parece evoluir em seu entendimento, diferentemente do debate público, que patina nas mesmas discussões sem fim.

Voltando à live, cujo convite para minha participação veio na esteira de uma doação de R$ 350 mil da Empiricus feita ao Fundo Social de São Paulo, debatemos na ocasião uma maior participação dos empresários brasileiros em ações de filantropia.

Realmente, a reação dos empresários à crise foi notável. Bilhões de reais foram levantados para ajudar no combate à epidemia e seus efeitos na população mais vulnerável.

Diante disso, fui questionado se estávamos testemunhando uma mudança efetiva não só no comportamento dos empresários, mas da sociedade em geral. A pergunta trazia a possibilidade de estarmos nos transformando em uma comunidade mais solidária, depois do choque advindo do enfrentamento da pandemia.

Para decepção dos meus interlocutores, externei meu ceticismo quanto a uma mudança mais duradoura na forma como nos relacionamos. Disse que não acreditava numa transformação permanente e antecipei que a mobilização que observávamos tendia a se dispersar em sincronia com o eventual alívio da carga viral.

Em retrospecto, minha previsão furou, mas não pelo lado esperado pelos entrevistadores. A sociedade mais solidária foi bem mais efêmera do que a presença do vírus, que segue teimosamente nos assombrando.

No lugar de nos aproximar, parece que o combate ao vírus nos dividiu mais do que nunca. O confinamento aumentou nossa exposição às redes sociais com uma toxicidade ainda mais prevalente do que em tempos mais livres.

O Brasil é apenas um dos campos onde joga-se o campeonato. De um lado, os convencidos de que a quarentena tem causado mais prejuízo do que benefícios. De outro, os defensores do confinamento até que encontremos uma solução definitiva ao vírus.

Estamos reabrindo nossa economia agora. O número de casos segue crescendo, mas a fadiga do isolamento empurra as pessoas para encararem os riscos e seguirem com suas vidas. 

A tragédia da contabilização diária dos mortos seguirá por semanas e até meses. Sabemos estatisticamente como se distribuem as vítimas. Os idosos e aqueles que sofrem com outras doenças carregam o fardo. Esses devem seguir se protegendo até que tenhamos soluções confiáveis contra o vírus. 

A abrangência real do custo da pandemia é mais ampla, porém. Um exército de desempregados, incontáveis empresas e negócios fechados e todo o drama das pessoas atingidas ainda ecoarão por bastante tempo.

A conta do colossal déficit público resultante das necessárias ações governamentais de mitigação dos danos econômicos da crise será grande. Certamente, pagaremos com mais impostos, salvo um improvável programa de reforma da administração pública. E o peso do resgate não recairá sobre os mais ricos, que seguirão com suas sofisticadas otimizações fiscais, mas sim sobre os ombros da classe média, com impostos retidos na fonte e pesada tributação de suas pessoas jurídicas.

Deixo você agora com os destaques da semana.

Boa leitura e um abraço,
Caio

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