Dirigindo sob a tempestade

No escritório-sede da Empiricus, na hoje deserta avenida Faria Lima, em São Paulo, as salas de reunião foram batizadas em homenagem aos nossos gurus inspiradores.

No escritório-sede da Empiricus, na hoje deserta avenida Faria Lima, em São Paulo, as salas de reunião foram batizadas em homenagem aos nossos gurus inspiradores.

Taleb, Buffett, Soros e Kahneman.

Entre esses, Daniel Kahneman é o único que não tem nos investimentos sua principal ocupação.

Com Daniel Kahneman no evento Game Changers da Empiricus

O psicólogo israelense e Prêmio Nobel de Economia de 2002 iniciou sua carreira desenvolvendo técnicas de treinamento para os pilotos da Força Aérea do seu país.

Após se mudar para os Estados Unidos, desenvolveu um trabalho seminal com seu compatriota Amos Tversky tratando de temas como julgamento e processo decisório.

Anos depois, quando transferido para a Universidade Stanford, Kahneman colaborou com o então jovem economista Richard Thaler, que foi mais tarde também agraciado com o Prêmio Nobel de Economia. Dessa parceria nasceu a chamada Economia Comportamental.

Tive o privilégio de conhecer ambos, Kahneman e Thaler, pessoalmente, em eventos que organizamos para assinantes da Empiricus.

Quando recebemos Daniel Kahneman, o seu livro “Rápido e Devagar - Duas Formas de Pensar” acabara de ser lançado.

A ideia do livro é original e absolutamente conectada com os tempos de pandemia que vivemos hoje.

Kahneman aborda as formas que pensamos, o que ele chama de Sistema 1 e Sistema 2.

O primeiro é a forma rápida, intuitiva e emocional com que processamos as informações recebidas. Trata-se do pensar sem esforço, praticamente automático.

O segundo sistema é mais lento, deliberado. Exige nosso esforço mental e trata de aspectos lógicos e racionais.

E por que digo que a classificação dos sistemas é pertinente ao momento que vivemos?

Ora, compare nossa atenção ao nos aventurarmos no mundo exterior hoje com a de quando o fazíamos antes.

Ligamos o Sistema 2 mesmo antes de pisarmos fora de casa. Além de máscara e álcool gel, antecipamos mentalmente o trajeto a ser percorrido bem como a maneira de nos locomover. E até voltarmos à nossa casa, onde também devemos nos desvencilhar de roupas e calçados potencialmente contaminados, estamos sempre atentos a se o devido distanciamento pessoal está sendo respeitado.

Tudo bem diferente da maneira automática e despreocupada que partíamos ao convívio social no mundo pré-coronavírus.

Amplio agora a analogia e a trago para o tema dos investimentos.

Estamos no meio de uma colossal crise financeira, comparável somente com a vivida no período da Grande Depressão, a partir de 1929.

Desde meados de março, estamos sendo assolados por uma tempestade perfeita, tormenta que já levou parte do nosso patrimônio e ameaça o nosso futuro financeiro.

Para piorar, enfrentamos uma crise política grave, com potencial de transbordar sobre a estabilidade de nossas instituições.

Inacreditavelmente, alguns tratam o tema de forma leviana. Em uma newsletter recente, falei dos tais torcedores do mercado e do desserviço que está sendo prestado ao investidor individual brasileiro.

A rentabilidade negativa recente de muitos fundos DI indica que não há mais espaço para o Sistema 1 quando falamos sobre investimentos.

O momento exige concentração e disciplina. Erros podem ter consequências dramáticas. Acertos têm potencial de mudar nosso patamar financeiro.

Em seu livro, Kahneman descreve como ativamos o Sistema 2 quando nos deparamos com um temporal ao volante.

Agora é hora de baixar o volume do som do carro, pedir silêncio aos passageiros e redobrar a atenção... até a tormenta passar.

Deixo você agora com os destaques da semana.

Um abraço e boa leitura,
Caio

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