Operação Ópera para os seus investimentos

O experiente grupo de pilotos aguardava a ordem do seu líder, comandante Ze’ev Raz, para iniciar a missão.

O experiente grupo de pilotos aguardava a ordem do seu líder, comandante Ze’ev Raz, para iniciar a missão.

O calor opressor do fim da primavera na base aérea de Etzion, no extremo sul de Israel, não dava trégua à tensão da preparação final da missão.

Todos os detalhes foram planejados à exaustão. A principal preocupação era com a autonomia dos jatos, carregados com bombas para enfrentar um voo total de 3.000 quilômetros (ida e volta).

Sem o equipamento necessário para o reabastecimento aéreo, a equipe da IAF (Força Aérea israelense) levou ao limite a otimização de combustível, a ponto de os aviões serem reabastecidos na pista, instantes antes de decolarem, com os tanques na capacidade total.

Às 15h55 do dia 7 de junho de 1981, os oito pilotos partiram ao seu destino, o Centro Nuclear de Al-Tuwaitha, localizado a 17 quilômetros a sudeste de Bagdá. Lá estava sendo desenvolvido o reator Osirak, de tecnologia francesa. A missão era destruí-lo, ferindo de morte a capacidade nuclear
iraquiana.

A preparação israelense se iniciara quatro anos antes, quando o então primeiro-ministro Menachem Begin autorizou a construção de uma réplica em escala real do reator, para que os pilotos pudesses simular o ataque.

Ironicamente, os israelenses contaram com o duplo auxílio dos iranianos em seu planejamento.

Primeiro de forma direta. O Irã, então em guerra contra o Iraque, já havia bombardeado as instalações do Osirak, e, assim sendo, compartilharam com os israelenses o mapeamento fotográfico levantado durante o ataque.

E também de forma indireta. As animosidades iranianas contra os Estados Unidos, na esteira da derrubada do regime aliado americano de Reza Pahlavi, fizeram com que Israel herdasse um lote dos modernos caças F-16A, originalmente encomendados por Teerã.

Foram justamente esses recém-recebidos F-16A que dariam à IAF a autonomia para voar ao Iraque e voltar. Protegendo o grupo, uma esquadrilha de seis F-15A estaria pronta para defendê-los em caso de confronto com caças inimigos.

A esquadrilha iniciou o seu percurso sobrevoando as águas do Golfo de Eliat. Com os bolsos recheados de moeda iraquiana (caso fossem forçados a descer em solo inimigo), os pilotos de cara passaram por cima do iate do rei Hussein, da Jordânia. O próprio conseguiu identificar a olho nu a origem israelense dos aviões. De pronto, tentou avisar seu comando militar, mas sem sucesso devido a falhas na comunicação.

Atravessando pelo espaço aéreo jordaniano, os pilotos foram contatados por controladores de voo, aos quais responderam em árabe, com sotaque saudita, que estavam voltando ao seu país de origem. E quando entraram na Arábia Saudita, passaram-se por jordanianos, usando sinais de rádio e formações típicas daquele país.

Ao entrar no espaço aéreo iraquiano, o esquadrão desceu a apenas 30 metros das areias do deserto, evitando a detecção pelos radares inimigos.

Duas horas e quarenta minutos após a decolagem, o comandante Ze’ev Raz iniciou um subida, seguido pelos demais em formação. Ao atingirem 2.100 metros, embicaram num ângulo de ataque de 35 graus, acelerando para 1.100 km/h. Ao chegar a 1.100 metros de altitude, soltaram suas bombas Mark 84. Pelo menos 8 das 16 utilizadas atingiram o alvo, destruindo completamente o reator. O ataque todo durou 2 minutos.

Evitando a reação da Força Aérea iraquiana, o esquadrão subiu a altas altitudes e retornou ileso ao solo israelense. Eufóricos, os pilotos extravasavam a adrenalina recitando o verso bíblico de Josué 10:12.

Como já esperavam, as autoridades israelenses foram duramente criticadas. Tanto o Conselho de Segurança como a Assembleia-Geral da ONU emitiram resoluções condenando Israel, exigindo indenização e reparações ao governo iraquiano.

Até mesmo aliados tradicionais mostraram indignação e repúdio. Ronald Reagan e Margaret Thatcher questionaram abertamente a ação. O New York Times, tradicionalmente simpático a Israel, classificou a ação como “um ato injustificável e uma agressão míope”.

Em resposta, os israelenses declararam que a ação não era uma anomalia, mas, sim, uma postura a ser adotada por todos os futuros governos do país. Não tolerariam o desenvolvimento de capacidade nuclear por nações que representassem ameaça à existência do Estado de Israel. E ponto.

Posteriormente, muitos questionaram a efetividade do que foi batizada de Operação Ópera, ou Operação Babilônia. Independentemente da análise que possa ser feita, o fato é que nenhum país na região, com exceção de Israel, ousou desenvolver tecnologia para a construção de armas atômicas.

Neste início de ano em que a temperatura escalou ao limite, com o Irã ameaçando retaliar o assassinato do general Qasem Soleimani, lembrei da ação do esquadrão da IAF. A ousadia e a petulância da missão ficaram marcadas na minha imaginação adolescente de 13 anos. Como não conectar os pontos e reconhecer que, sem a formidável destreza do time do comandante Ze’ev Raz, as ameaças recentes teriam outra magnitude?

Traçando um paralelo com o tema investimentos, nunca nos cansaremos de lembrar da importância de inserir proteções em nossos portfólios, mesmo quando estamos transbordando de otimismo e confiança.

Proteções são seguros em caso de cenários adversos. E, como seguros, têm custos que nos fazem questionar a sua necessidade, especialmente quando as coisas vão bem.

O futuro porém é incerto. Mais do que isso, é impenetrável. Como, portanto, é impossível saber o que está por vir, temos que estar posicionados para aproveitar as oportunidades ao mesmo tempo que nos protegendo de impactos negativos.

Certamente Israel não tinha qualquer possibilidade de antecipar o desenrolar dos acontecimentos a partir do contexto de 1981. Enquanto o Irã do aiatolá Khomeini e o Iraque de Saddam Hussein se engalfinhavam numa guerra fratricida, Donald Trump construía cassinos em Atlantic City e Osama bin Laden organizava a resistência afegã à ocupação soviética.

Mesmo sob a névoa da guerra, Israel estava preparado para arcar com os custos do seguro que viriam na forma de ameaças e pressões internacionais.

Não menospreze a importância da proteção em seus investimentos.

Deixo você agora com os destaques da semana.

Um abraço e boa leitura.

Caio

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