Para contar aos nossos netos

Na minha infância tive uma relação muito próxima com os meus avós maternos, Antonio e Emília. Eram nossos vizinhos de muro e, para não ter que sair na rua, havia um porta de madeira interna dando comunicação às duas propriedades. Bastava puxar uma cordinha presa a um trinco para ter acesso àquele aconchego que só encontramos na casa dos avós.

— Vovô, me conta de novo aquela história.

— Qual, meu filho? 

— Aquela que aconteceu quando você era pequeno, que você conta sempre, que você diz que nunca mais vai se esquecer.

— Ah, você está falando daquela vez que me perdi com os meus irmãos lá na mata da Vila Carrão? E que, de tão nervoso e faminto, terminei comendo pela primeira vez uma copa, com aqueles pedações nojentos de gordura. 

— Não, vovô, quero ouvir aquela outra história, daquela doença que matou um monte de gente e que você diz que passava uma carroça na rua levando as pessoas mortas embora. Me conta de novo. 

Na minha infância tive uma relação muito próxima com os meus avós maternos, Antonio e Emília. Eram nossos vizinhos de muro e, para não ter que sair na rua, havia um porta de madeira interna dando comunicação às duas propriedades. Bastava puxar uma cordinha presa a um trinco para ter acesso àquele aconchego que só encontramos na casa dos avós.

Acredito que, durante minha infância, tenha dormido mais vezes na casa deles do que na minha própria cama. Lembro de ir acordando aos poucos ao som do rádio do meu avô, sintonizado no programa do Zé Béttio, popular locutor de rádio de São Paulo dos anos 70. Sempre com direito a sonoplastia de canto de galo e chamadas motivacionais — “Acorrrrrrrda”, com aquele “r” típico do interior.

Até hoje salivo com a lembrança dos quitutes da vovó. Filha de pais portugueses, mas nascida e crescida no italianíssimo bairro paulistano do Brás, Dona Emília combinava magistralmente o que havia de melhor nas duas culinárias. O que eu não daria hoje para poder degustar mais uma vez o seu bacalhau de panela ou sua macarronada ao sugo com ragu de carne. 

Voltando ao meu avô, é dele que herdei o amor ao Corinthians, naquelas tardes de domingo ouvindo Fiori Gigliotti descrever os clássicos embates com os rivais palmeirenses e são-paulinos. E foi ao lado dele também que, em transe, vi meu time comemorar pela primeira vez um campeonato, depois de derrotar a Ponte Preta naquela quarta-feira de 1977.

Nesta semana, minha memória foi inundada pelas conversas com meu avô sobre a gripe espanhola, que passou pelo Brasil em 1918, vitimando até o então presidente da República eleito, Rodrigues Alves, e impedindo sua posse. 

A epidemia causou a morte de 6 mil paulistanos, cerca de 1% dos paulistanos da época. Transportada aos tempos de hoje, seria o equivalente a 120 mil vítimas fatais na cidade de São Paulo. A calamidade vivenciada pelo meu avô Antonio ficou gravada a ferro quente em sua memória. A vivência do menino Antonio de 11 anos de idade, por sua vez, inspirou a imaginação do menino Caio sessenta anos depois.

Já sabemos que o Covid-19 tem uma letalidade menor que a do vírus influenza, que assolou o mundo na segunda década do século passado. Conhecemos também sua alta capacidade de contágio. A evolução diária dos casos do novo coronavírus comprovados no mundo impressiona por sua semelhança, o que facilita a projeção do que está por vir.

A Itália é a China de uma mês atrás, e a França será a Itália dentro de uma semana e assim por diante.

Os Estados Unidos estão alguns dias à nossa frente. No Brasil, São Paulo, até por ter mais fluxo de viajantes para o exterior, antecipa o que deve acontecer nos outros Estados.

Enquanto escrevo esta newsletter, na sexta-feira, divulga-se o número oficial de caso no Brasil de 140 infectados. Certamente esse número já será maior no momento que você estiver lendo este texto. A própria dinâmica da contaminação garante esse previsibilidade.

Como sinalizei na newsletter da semana passada, já temos encomendada uma longa sequência de notícias ruins para as próximas semanas. O mesmo processo de shutdown que estamos vendo na Europa vai se desenrolar nos Estados Unidos e, muito provavelmente, por aqui também.

Tenho observado a manifestação de alguns afoitos conclamando a todos que já está na hora de aproveitar a liquidação nos preços dos ativos, depois da devastação dos últimos dias.

Aqui na Empiricus concordamos que há excelentes oportunidades de comprar ações de empresas de qualidade a preços atraentes.

No momento, porém, nossa recomendação é de absoluta cautela e proteção. O barco vai balançar muito antes de atracar em um porto seguro.  

Estamos navegando em águas até agora inexploradas. Inquestionavelmente, teremos semanas difíceis pela frente. 

O modo sobrevivência está ligado e assim ficará até termos uma melhor perspectiva do desfecho, tanto da epidemia como de suas consequências para a economia e os mercados.

Deixo você agora com os destaques da semana.

Um abraço e boa leitura. 

Caio

P.S.: Nessa semana, o Pedro Cerize disse algo que quero repassar a vocês: “O que faz diferença não é o que você faz quando o mercado está subindo. Quando o mercado está subindo, todo mundo é inteligente. Mas o que faz diferença é o que você faz quando o mercado está caindo e com volatilidade”. Indico fortemente a leitura completa do conteúdo dele, que certamente vai te preparar para se proteger (e ter mais chances de ganhar) com as turbulências do cenário atual.

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