Será que você está desperdiçando seu maior talento?

“The only game in town.” Tal qual um concierge de hotel responde a um viajante novato onde ele pode encontrar algum movimento numa cidade pequena (e indica o único bar ainda aberto), a queda estrutural da taxa de juros no Brasil é o único tema que ouço aqui na Faria Lima.

“The only game in town.”

Tal qual um concierge de hotel responde a um viajante novato onde ele pode encontrar algum movimento numa cidade pequena (e indica o único bar ainda aberto), a queda estrutural da taxa de juros no Brasil é o único tema que ouço aqui na Faria Lima.

E o que podemos fazer diante de uma realidade que se apresenta? 

De fato, salvo algum cisne negro sorrateiro, conviveremos por muito tempo com juros de curto prazo zerados. Para o longo prazo, não receberemos mais do que 3 por cento ao ano nas aplicações.

A boa-nova é que níveis baixos de juros estão reprecificando o custo de capital no Brasil, fenômeno com impacto tremendamente positivo na nossa economia real. 

Em contrapartida, poupadores e investidores brasileiros, acostumados com bons ganhos reais nas suas aplicações, terão que se mexer, sob pena de comprometer as chances de uma vida mais confortável no futuro. 

Uma passagem bíblica do Novo Testamento ilustra perfeitamente o desafio que nos está posto.

A parábola conta a história de um homem rico que, prestes a iniciar uma longa viagem, resolve delegar aos seus três servos a guarda de seus bens (chamados de “talentos” na Bíblia).

Após analisar as competências de cada um, o senhor optou por fazer uma distribuição desproporcional. O mais bem avaliado recebeu 5 talentos, ao intermediário foram entregues 2 talentos e ao último coube apenas 1 talento. Após a repartição, o senhor iniciou sua viagem.

Cada um por si, os servos rapidamente colocaram os talentos para laborar.

Recebedor do maior dote, o primeiro não titubeou em empreender. Como resultado, viu crescer sua alocação para 10 talentos. O segundo conseguiu o mesmo retorno e também dobrou sua alocação. O último, porém, acovardou-se e apenas enterrou o dinheiro numa cova, para protegê-lo de eventuais larápios. 

Depois de muito tempo, o senhor voltou e, claro, foi pedir a prestação de contas sobre os recursos que delegara aos seus servos.

O primeiro servo a ser chamado, aquele que recebera a maior quantia, informou contente a performance conquistada: “Senhor, entregaste-me 5 talentos; eis aqui outros 5 que ganhei!”.

Satisfeito, o senhor abriu um enorme sorriso e, não só elogiou a competência do servo, como indicou que lhe confiaria mais recursos no futuro.

Em seguida, foi a vez do segundo servo mostrar o belo retorno de 100 por cento. A essa notícia, o senhor empenhou elogios e sinalizou que, dada a mesma performance relativa do primeiro, o segundo servo também faria jus a futuras alocações de capital.

Por fim, veio o terceiro. Amedrontado, devolveu o talento recebido e justificou a péssima performance, já que apenas enterrou os recursos sem investi-los, no receio que tinha de perder tudo e levantar a ira do temido mestre.

Ultrajado, o amo despejou sua indignação. Taxando o servo de mau e preguiçoso, o senhor observou que, em vez de enterrar o dinheiro, ele poderia ao menos ter confiado a um banco seus recursos, assim recebendo juros pela soma aplicada.

Como punição, o senhor retirou o talento do servo incompetente, transferindo o recurso para o primeiro, aquele dos 10 talentos. Para piorar, o servo medroso foi banido das terras do senhor, condenado então a “choro e ranger dos dentes”.

A Parábola dos Talentos, contada no Capítulo 25 do Evangelho de Mateus, é tradicionalmente interpretada como um exortação aos fiéis de Jesus a usarem os dons agraciados por Deus para a causa do Senhor. Outra interpretação vem justamente do uso literal da palavra “talento”, entendida como habilidades pessoais, cuja não utilização resultaria em castigo.

Opto aqui pela interpretação literal.  

Não cuidar dos nossos recursos financeiros é uma afronta a nós e àqueles que nos cercam e que nos depositam sua confiança.

Por décadas, a negligência do servo preguiçoso foi aliviada por juros altos que, de alguma forma, remuneravam os investidores.

No Brasil de antigamente, campeão mundial dos juros altos, era possível ganhar dinheiro mesmo com produtos financeiros ruins, impregnados por altas taxas e comissões escondidas. Não mais.

O contexto atual igualou as aplicações de curto prazo, mesmo aquelas mais recomendáveis, como fundos DI com taxa zero e Tesouro Selic, a meros buracos na terra que evitam o ladrão da inflação. E só.

A partir de agora, teremos que colocar nossos talentos para trabalhar.  

Dedicação, disciplina e atenção com o nosso dinheiro é uma declaração de respeito e amor a nós mesmos e àqueles que mais amamos.

Um abraço e boa leitura.

Caio

Inscreva-se em nossa newsletter