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Digestão da ata do Copom e declarações de Haddad que fizeram Ibovespa ‘derrapar’: veja os destaques desta terça-feira (25)

Semana abre com turbulências no mercado brasileiro; índices americanos alcançam novas altas.

Por Matheus Spiess

25 mar 2025, 09:32 - atualizado em 25 mar 2025, 09:32

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Imagem: iStock/ reisegraf

Estava tudo caminhando razoavelmente bem — até que o governo, como de costume, resolveu atrapalhar. Os ativos locais vinham acumulando um desempenho robusto em março, recuperando-se da correção de fevereiro, e a semana prometia certa tranquilidade, especialmente com Lula fora do país em viagem pelo Japão e Vietnã. Brasília, por alguns dias, até parecia silenciosa.

Ilusão. Eis que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, resolveu testar os limites do estrago verbal: uma declaração mal colocada foi o suficiente para bagunçar o cenário local, levantar dúvidas sobre os já frágeis fundamentos fiscais e ressuscitar o risco político num momento em que o mercado começava a respirar. Como venho dizendo: o maior teto para o rali dos ativos brasileiros pode ser — e frequentemente é — o próprio governo.

Para deixar a situação ainda mais curiosa, enquanto o Brasil tropeçava, o dia foi positivo nos Estados Unidos. Dados melhores de atividade renovaram o apetite por risco por lá, o que acendeu um velho dilema dos mercados globais: quando os EUA respiram aliviados, boa parte do resto do mundo prende o fôlego. É simples: em tempos de incerteza, os mercados emergentes se beneficiam da rotação de capital que foge do risco americano. Mas quando a economia dos EUA volta a mostrar força, o dinheiro corre de volta para lá — deixando ativos como os nossos à míngua. Em outras palavras, um dia bom para os EUA pode significar um dia ruim para o resto do mundo. Nesta manhã, as bolsas europeias operam em alta, impulsionadas por sinais de melhora no sentimento empresarial na Alemanha. Um alento que contrasta com o desempenho morno da Ásia e a fraqueza dos futuros em Nova York. 

· 00:56 — Elegância diplomática

Por aqui, o dia começou com a digestão da ata do Copom — e que peça de retórica refinada ela foi. Em tom sóbrio, porém nada sutil, o Banco Central deixou claro seu desconforto com a mais nova gambiarra fiscal do governo: os pacotes de crédito eleitoreiros, aqueles mesmos que Lula adora embalar como políticas sociais. Foi uma crítica revestida de diplomacia bem elegante, mas sem disfarçar o incômodo. Quando diziam que Galípolo era político e escorregadio como sabão, não era exagero. A ata foi, literalmente, um “não faça isso de novo” com sorriso no rosto.

O BC chamou atenção para o que venho repetindo: o governo segue tentando acelerar com o freio de mão puxado. Quer estimular a economia enquanto a Selic ainda gira perto de 14%, agora com viés de parada em 15%. É um contrassenso completo, ineficaz do ponto de vista técnico, custoso do ponto de vista fiscal e, claro, conveniente do ponto de vista eleitoral. Mas o recado da ata foi claro: o ciclo de aperto está próximo do fim, só que ainda resta uma última dose amarga. A parte trágica — ou cômica, dependendo do seu grau de cinismo — é que a política monetária continua tentando apagar o incêndio que a ala populista do governo acende toda semana. E, sozinha, ela não vai resolver a equação. É aí que entra o fiscal — ou melhor, a ausência dele. Haddad, por exemplo, resolveu relativizar o arcabouço fiscal que ele próprio assinou com pompa e circunstância. Foi desastroso. Depois, tentou corrigir a fala, mas o dano já estava feito. O mercado entendeu o recado: nem o criador acredita mais na criatura.

Sabemos que, no estado atual, a situação é insustentável. Mas também sabemos que nenhuma mudança relevante virá antes de 2027 — leia-se: antes de um novo governo. Até lá, o que veremos é improviso, contorcionismo fiscal e muita retórica vazia. Aliás, no campo político, hoje a Primeira Turma do STF começa a julgar a denúncia da PGR contra o ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. Caso a denúncia seja aceita, o processo penal será oficialmente instaurado. Tudo indica que, ao final, Bolsonaro acabará condenado. Com isso, seu nome vai saindo da equação de 2026, abrindo espaço para seu herdeiro político mais palatável: Tarcísio de Freitas.

Ontem mesmo, o governador de São Paulo apareceu ao lado do ex-presidente em um podcast, num movimento ensaiado, talvez, para fazer o início de uma transição simbólica da liderança da direita. Tarcísio se apresenta com a embalagem que o mercado sonha: sóbrio, reformista, fiscalista, com verniz técnico e sem os rompantes de palanque. Se essa trajetória se confirmar, podemos estar no começo de um novo ciclo — mais racional, mais previsível, mais pró-mercado. Mas calma lá: até 2026, ainda temos chão, tropeços e populismos pela frente. E o governo atual parece disposto a esgotar todas as opções erradas antes de considerar a certa.

 · 01:44 — Aniversário da bolha

Nos Estados Unidos, a contagem regressiva segue: falta pouco mais de uma semana para o início oficial da nova rodada de tarifas recíprocas. Ainda assim, o mercado — sempre ansioso por qualquer pretexto para celebrar — resolveu ontem (24) comemorar a possibilidade de que as medidas possam ser menos agressivas do que o pior dos cenários antecipava. Com isso, os principais índices americanos engataram uma recuperação respeitável, depois de semanas seguidas de perdas. O Dow Jones subiu 1,4%, o S&P 500 avançou 1,8%, e o Nasdaq engatou 2,3%. O alívio foi atribuído à ideia (ingênua?) de que talvez já tenhamos superado o pico do caos tarifário. Ingênua porque, sejamos sinceros, esse capítulo ainda está longe do fim — volatilidade extra continuará sendo servida em doses generosas. Pode anotar.

Parte desse movimento otimista foi alimentado por um mercado tecnicamente sobrevendido, o que ajudou a engatilhar um novo apetite por risco. Ironia das ironias, esse suspiro veio justo no aniversário de 25 anos do estouro da bolha das pontocom — quando, em 24 de março de 2000, o S&P 500 atingia o então recorde de 1.527,46 pontos antes de despencar pela metade nos dois anos seguintes. Desde o lançamento público do ChatGPT, em novembro de 2022, muitos levantaram o alerta de uma possível bolha de inteligência artificial. E embora os paralelos com o ano 2000 sejam tentadores, ainda estamos longe de uma repetição literal. Por ora, a correção recente nos parece menos o início de um colapso e mais uma oportunidade de recalibrar as posições — ao menos enquanto o próximo ruído político-comercial não bater à porta. 

· 02:32 — Mais leve?

Vários veículos de imprensa, incluindo o Wall Street Journal, relataram que, embora as tarifas recíprocas estejam programadas para entrar em vigor em 2 de abril, as chamadas tarifas “setoriais” — aquelas mais amplas, que afetariam uma gama diversa de importações, de automóveis a semicondutores — podem acabar suspensas ou ao menos adiadas. Essa possibilidade foi o suficiente para provocar um alívio nos setores diretamente envolvidos, com ações do setor automotivo e de tecnologia ensaiando recuperação. Donald Trump, por sua vez, segue jogando xadrez com peças de pôquer. Embora mantenha a promessa de anunciar novas tarifas nos próximos dias, também sinalizou que pretende conceder “pausas” seletivas para determinados países. Ou seja, tudo continua sendo definido no grito — ou no Twitter, o que der mais engajamento.

Mas não para por aí: Trump resolveu mirar agora na Venezuela. Segundo o presidente americano, qualquer país que importar petróleo venezuelano será penalizado com uma tarifa de 25% a partir de 2 de abril — data que ele já apelidou, com o capricho habitual de marketing político, de “Dia da Libertação”. Vale lembrar que, em 2024, os EUA importaram 230 mil barris por dia da Venezuela. A Venezuela, tentando contemporizar, aceitou receber de volta deportados dos EUA, numa tentativa de aliviar tensões. Mas é difícil imaginar que qualquer gesto diplomático vá alterar o ímpeto beligerante de Trump, cuja política externa é cada vez mais uma extensão de sua retórica eleitoral.

Ainda assim, há quem veja nessa bagunça toda uma chance de respiro a curto prazo — ilusão passageira, na melhor das hipóteses. A verdade é que ninguém sabe exatamente qual será o formato final desse novo pacote tarifário, e isso, por si só, já destrói uma boa dose da previsibilidade que os mercados tanto prezam. A volatilidade tarifária virou método, não exceção. E a erosão de confiança global causada por esse jogo errático será difícil de reverter — mesmo que, no curto prazo, Wall Street continue preferindo se agarrar a qualquer sinal de que a pancada pode ser adiada. O mercado, como sempre, torce por trégua — mas Trump joga por espetáculo.

· 03:21 — A fabricante chinesa

A montadora chinesa BYD está surfando um início de ano exuberante, com suas ações subindo mais de 36% na bolsa de Xangai — um desempenho que deixa boa parte da concorrência para trás, inclusive a Tesla de Elon Musk. Aliás, falando em números concretos, a BYD já superou a Tesla em vendas neste ano: US$ 100 bilhões contra US$ 97,7 bilhões. O motivo do sucesso não é segredo: uma linha extensa de modelos elétricos e híbridos recheados de tecnologia, com preços que vão do popular ao premium, e sem a arrogância de achar que só o luxo vende. Para não deixar dúvidas sobre suas ambições, a empresa revelou um novo ecossistema que promete carregar 400 km de autonomia em apenas cinco minutos — isso mesmo, cinco minutos —, além de empacotar assistentes avançados de condução até nos modelos de entrada.

Desde que abandonou completamente os motores a combustão, em março de 2022, a BYD se tornou a primeira grande montadora do mundo a dizer adeus definitivo à gasolina — e, desde então, suas vendas têm decolado. Enquanto o Ocidente ainda debate se o futuro é mesmo elétrico, a BYD já está com o pé no acelerador e o retrovisor apontado para a concorrência. Claro, nem tudo são flores. Para sustentar sua nova plataforma de carregamento ultra-rápido, a companhia terá que instalar cerca de 4 mil estações de recarga na China — um investimento bilionário que pode pressionar o caixa e testar a eficiência operacional da empresa. Mas, por ora, a história continua sendo de glória. A BYD lidera o mercado chinês com folga, empilha inovações e coleciona vitórias estratégicas. Enquanto os rivais ainda tentam entender para onde o setor está indo, ela já está lá. E não parece com pressa de tirar o pé do acelerador.

· 04:18 — Política fiscal e industrial?

Afogada por dois choques globais de proporções históricas — a pandemia e a guerra na Ucrânia —, a política fiscal foi catapultada para o centro da arena econômica global no início da década de 2020. E, desde então, não saiu mais de lá. A virada de chave foi brutal: a política fiscal, que antes era tratada como um instrumento de emergência, passou a ser usada com gosto e sem cerimônia como motor permanente de gestão de ciclo — tudo em nome de uma suposta correção de “desequilíbrios estruturais”. O problema? Em muitos casos, virou apenas um disfarce para populismo travestido de política pública. Nos bons tempos — leia-se, antes da guinada gastadora que varreu o Ocidente —, o papel da política monetária era claro: suavizar o ciclo. A fiscal, por sua vez, só aparecia na vitrine quando necessário. Foi assim desde os anos 1980, quando Reagan e Thatcher redefiniram os limites do Estado e colocaram o intervencionismo em seu devido lugar: o de último recurso. Hoje, essa cautela soa quase exótica.

O mundo atual opera sob uma lógica completamente invertida. Políticas fiscais e industriais não só voltaram à moda, como foram promovidas à categoria de solução mágica para qualquer problema — da desigualdade à estagnação demográfica, passando por toda sorte de angústia estrutural. E o que começou como resposta a crises genuínas, como a Covid-19, virou política permanente, empurrada por governos sedentos por protagonismo e popularidade. Nos Estados Unidos, o governo Biden abandonou qualquer timidez: despejou bilhões de dólares em incentivos industriais, infraestrutura e energia verde — tudo sob o pretexto de “resiliência econômica”, mas também com um olho no eleitorado e outro na disputa geopolítica com a China. O curioso é que essa nova abordagem virou política de Estado.

Essa nova era de gastança estratégica, no entanto, não é exclusividade americana. A Europa, antes templo da ortodoxia fiscal ao menos na Alemanha, agora também entrou no baile. Com o novo pacote alemão e a busca por maior segurança energética e militar, o bloco europeu engavetou temporariamente os mantras da austeridade. O novo normal fiscal europeu se organiza em torno de quatro grandes e caríssimos pilares: tecnologia, defesa, descarbonização e infraestrutura energética. A conta? Quase 5% do PIB anual da UE — valor que faz o Plano Marshall, com seus modestos 1%–2%, parecer um troco de padaria. O nome disso é reindustrialização a fórceps, bancada por subsídios estatais e medidas protecionistas. Em outras palavras, estamos vivendo uma corrida global por repatriação industrial. O mundo, que antes pregava mercados abertos e disciplina fiscal, agora se organiza em torno de fronteiras produtivas e orçamentos elásticos. É o fim da era da parcimônia e o início de um novo ciclo, em que o Estado volta com força total — não necessariamente com eficiência. Uma nova era, sim. Mas, em muitos casos, com os mesmos erros de sempre.

· 05:03 — Ainda construtivo

Ontem, o ouro escorregou levemente, mas continua firmemente acima dos US$ 3.000 por onça. A pressão de curto prazo vem da disparada recente do dólar, alimentada por mais uma rodada de bravatas tarifárias de Donald Trump, que fez a moeda americana atingir a maior alta em duas semanas. Nada fora do script: como já repeti à exaustão, o ouro costuma andar em sentido oposto ao dólar — e está fazendo exatamente isso.

Sobre o autor

Matheus Spiess

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.