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Mercados globais aguardam nova leva de ‘tarifaços’ de Trump; no Brasil, números do Caged ‘batem’ no Ibovespa: veja os destaques desta semana

Enquanto as bolsas globais seguem de olho nas medidas tarifárias de Donald Trump, o Brasil apresenta uma economia mais aquecida que o esperado. Leia mais.

Por Matheus Spiess

31 mar 2025, 09:45 - atualizado em 31 mar 2025, 09:45

s&p 500 ações estados unidos eua

Imagem: iStock/ Galeanu Mihai

Os mercados globais entraram oficialmente no modo espera para a quarta-feira (2 de abril) — a data escolhida por Donald Trump para seu tão aguardado “Dia da Libertação”, nome digno de roteiro distópico. Nesse dia, a Casa Branca promete colocar em prática sua nova leva de tarifas recíprocas, incluindo a já anunciada tarifa de 25% sobre importações de automóveis. A escalada tarifária conduzida pelo presidente americano já fez estragos consideráveis, e os investidores seguem inquietos diante da possibilidade de novos capítulos ainda mais desorganizados. A dúvida que paira no ar — e que paralisa os mercados — é o grau de agressividade de Trump. Fontes dentro da própria Casa Branca já sinalizam que o Brasil está na mira, apesar das tentativas constrangedoras do governo brasileiro de se vender como aliado comercial “inofensivo” (temos déficit comercial com os EUA). Mas Trump não está fazendo lista com base em amizade — se for conveniente incluir o Brasil no tarifaço, será feito sem pestanejar.

Esse cenário de incerteza generalizada já começa a corroer a confiança dos agentes econômicos. Consumidores hesitam, empresários adiam decisões e investidores fogem de risco como o diabo da cruz. Em tempos normais, esse ambiente de menor crescimento abriria espaço para uma resposta clássica de política monetária — cortes de juros. Mas estamos longe da normalidade. A inflação subjacente ainda se recusa a ceder, e o impacto inflacionário das tarifas promete azedar de vez o ambiente. Enquanto isso, o mercado ainda precisa digerir os dados de emprego nos EUA previstos para os próximos dias. No meio desse cenário indigesto, as bolsas europeias amanhecem no vermelho, atingindo as mínimas de dois meses. Investidores estão saindo de ativos de risco como se estivessem pulando de um navio prestes a afundar, à medida que cresce o temor de que Trump pretende, de fato, aplicar tarifas sobre todos os parceiros comerciais relevantes. O clima na Ásia é semelhante: aversão ao risco generalizada e mercados no chão. O “Dia da Libertação” promete…

· 00:59 — Conseguiu o que queria, agora pague o preço

Brasília volta ao centro do noticiário com o retorno de Lula ao Brasil, após sua excursão pela Ásia. A viagem rendeu manchetes, especialmente pelo anúncio de um acordo com o Vietnã para a compra de carne brasileira — em sintonia com as negociações em andamento para ampliar o acesso da carne bovina nacional ao exigente mercado japonês. E não se trata de um detalhe técnico: os preços pagos pelo Japão são 54% superiores à média das exportações brasileiras. Considerando que o Japão é o terceiro maior importador global de carne bovina, atrás apenas da China e dos EUA, a potencial abertura desse mercado representa um avanço relevante para o setor agropecuário. É irônico que, em meio à escalada protecionista de Trump, o Brasil acabe se posicionando como alternativa confiável para abastecer regiões que antes preferiam Austrália e EUA. O caos global, às vezes, abre oportunidades.

Mas nem só de acordos comerciais vive a narrativa doméstica. O que realmente roubou a cena no fim da semana passada foi a divulgação dos números do Caged para fevereiro, que vieram como um balde de gasolina em uma fogueira que o Banco Central tenta apagar há meses. Foram 431.995 vagas formais criadas, o maior saldo da série histórica. Uma surpresa? Nem tanto. Na própria sexta-feira (280, já circulavam rumores de que o número viria forte. O problema é o timing. Em tese, bons dados de emprego deveriam ser comemorados. Mas quando se tenta ancorar expectativas de inflação e caminhar para o fim de um ciclo de aperto monetário, esse tipo de “surpresa positiva” vira dor de cabeça. E das grandes.

O mercado leu corretamente o recado: atividade aquecida demais significa inflação mais teimosa — o que, por sua vez, obriga o Banco Central a manter a Selic num patamar desconfortavelmente alto por mais tempo. O governo, por sua vez, parece insistir em uma estratégia cada vez mais disfuncional: pisar no acelerador da atividade via estímulos e subsídios, ao mesmo tempo em que reclama da lentidão na queda dos juros. É o clássico caso de tentar acelerar com o freio de mão puxado. O resultado disso? Um equilíbrio macroeconômico subótimo, no qual a política fiscal sabota a política monetária e todos pagamos o preço: menos eficácia no combate à inflação e uma taxa de juros que, em vez de cair, se arrasta no alto — exatamente como o governo jura que quer evitar. 

· 01:44 — Nervosismo

Os mercados americanos afundaram na sexta-feira (28), depois que o cheiro inconfundível da estagflação começou a pairar sobre os dados econômicos mais recentes — e os investidores, como bons animais de faro aguçado, trataram de correr. O S&P 500 despencou 2%, o Dow Jones tombou 1,7% e o Nasdaq derreteu 2,7%. Foi o encerramento de mais uma semana no vermelho para os principais índices: o S&P 500 e o Nasdaq já acumulam perdas em sete das últimas nove semanas, enquanto os três grandes índices caminham para dois meses consecutivos de queda. A festa acabou, ao que parece. O temor agora é bem claro: estagflação. O pesadelo macroeconômico que mistura o pior dos mundos — inflação alta com crescimento travado e, de brinde, aumento do desemprego. Um cenário em que qualquer tentativa de estímulo à economia só alimenta ainda mais a inflação, e qualquer freio para conter os preços afunda de vez o crescimento. Uma verdadeira sinuca de bico.

A última vez que os EUA se viram encurralados nesse tipo de ciclo foi na década de 1970 — e ninguém com um mínimo de juízo quer reviver aquela experiência. Os dados da última sexta-feira só ajudaram a reforçar a sensação de déjà vu: o índice PCE, a métrica preferida do Fed para inflação, veio acima do esperado, e as expectativas do consumidor medidas pela Universidade de Michigan também foram para o vinagre. Resultado? Um banho de água gelada na esperança de que o pior já tivesse passado. Agora, todos os olhos se voltam para o mercado de trabalho americano. Ao longo da semana, dados pontuais vão surgindo, mas o grande momento será o payroll de sexta-feira (4). Se os números confirmarem desaceleração no emprego sem aliviar a pressão sobre os preços, o cenário de estagflação ganhará contornos ainda mais concretos — e os mercados, mais uma vez, vão sangrar.

· 02:38 — O que vai acontecer no “Dia da Libertação”?

Ninguém sabe muito bem a resposta para essa pergunta. O relógio está correndo para o autointitulado “Dia da Libertação“, marcado para 2 de abril — data em que Donald Trump promete escancarar a nova leva de tarifas, com destaque para o tarifaço automotivo. A partir dessa quarta-feira (2), os Estados Unidos devem impor uma tarifa de 25% sobre carros de passeio e caminhões leves importados, além de taxar com o mesmo rigor uma lista generosa de peças essenciais: motores, transmissões, sistemas de trem de força, componentes elétricos e tudo mais que fizer um carro funcionar.

É, possivelmente, o maior ato de intervencionismo comercial desde a famigerada Lei Smoot-Hawley de 1930 — aquela mesma que ajudou a empurrar o mundo para a Grande Depressão. Mas também pode não dar em nada. Uma reviravolta de última hora, um adiamento estratégico ou algum acordo improvisado podem transformar esse espetáculo todo em apenas mais um capítulo de ruído ensaiado da Casa Branca. O problema maior é a incerteza. E ela, convenhamos, está ainda mais tóxica do que no primeiro mandato de Trump. Naquela época, havia método no caos. Agora, parece que nem isso sobrou. O mercado paga o preço da imprevisibilidade.

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· 03:25 — Pressão russa

Donald Trump voltou a agitar o noticiário internacional ao declarar que estuda impor “tarifas secundárias” sobre o petróleo russo — sobretaxas para países que continuarem comprando barris russos. A ameaça vem embalada como medida de pressão, caso um cessar-fogo com Kiev não avance. A ideia ganhou tração logo após Putin propor que a Ucrânia fosse colocada sob um governo provisório, comandado pela ONU, para organizar novas eleições — uma sugestão que foi prontamente rechaçada por Washington com a diplomacia de costume: um porta-voz dizendo que “não procede”.

A estratégia russa é óbvia e nada sutil: testar os limites da disposição de Trump em emparedar a Europa para que alivie as sanções. Mas é aí que o jogo pode virar. O Kremlin parece esquecer que o ex-presidente americano é tão imprevisível quanto inflexível — e, se Putin apertar demais, pode acabar levando mais do que pediu. Ao tentar medir forças com alguém que transforma a diplomacia em espetáculo, Moscou corre o risco de aprender, da forma mais dolorosa, que brincar com fogo geopolítico sempre acaba queimando alguém — e nem sempre é o outro lado.

· 04:16 — O fim do relacionamento americano tradicional

O segundo mandato de Donald Trump tem causado um estrago muito maior no tabuleiro geopolítico do que sua primeira passagem pela Casa Branca — o que, convenhamos, já é um feito considerável. Se antes Trump agia como um presidente transacional contido por amarras institucionais internas e contrapartes externas relativamente robustas, a versão 2.0 veio com menos freios, mais convicção e disposição total para atropelar convenções diplomáticas.

Bastaram dois meses para demolir qualquer ilusão de continuidade com o passado. O mundo que ainda sonhava com uma política externa americana previsível está agora diante de uma tempestade. E ninguém sente esse choque de realidade com mais intensidade do que a Europa. A aliança transatlântica, que já vinha rangendo sob o peso da desconfiança mútua, agora parece ter entrado de vez em estado de decomposição. O que restava de cordialidade foi substituído por ressentimento silencioso — ou, em alguns casos, nem tão silencioso assim.

Na Ásia, aliados centrais como Japão, Coreia do Sul, Índia e Austrália andam pisando em ovos. Sabem que podem ser os próximos alvos da fúria tarifária trumpista e, por isso, têm se empenhado em apaziguar o presidente americano — um malabarismo diplomático que lembra mais súplica do que negociação. O México e o Canadá, maiores parceiros comerciais dos EUA, também estão na linha de tiro. Sofrem pressão crescente, mas sabem que bater de frente não é opção: o desequilíbrio de poder é tão gritante que qualquer tentativa de retaliação pareceria infantil. A verdade inconveniente é que a maioria dos aliados americanos simplesmente não tem um plano. Foram pegos de surpresa por um segundo mandato mais agressivo e menos previsível. 

· 05:03 — Oportunidades na China

A indústria de tecnologia chinesa — que até outro dia era tratada como seguidora — agora parece ter acordado de vez, e acordado de mau humor. Uma avalanche de lançamentos, vindos tanto de startups quanto dos titãs tradicionais, acendeu uma nova fagulha no setor. De repente, a inteligência artificial virou prioridade nacional e reposicionou a estratégia de Pequim para a corrida tecnológica global…

Sobre o autor

Matheus Spiess

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.