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Imagem: iStock.com/MicroStockHub
A Super Quarta trouxe decisões alinhadas às expectativas do mercado, mas com nuances importantes nos discursos das autoridades monetárias. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve manteve as taxas de juros inalteradas, e o tom adotado foi misto, oscilando entre sinais de cautela e possibilidades de cortes ao longo de 2025. A continuidade da flexibilização monetária dependerá dos dados econômicos dos próximos meses e da condução da política comercial do governo Donald Trump.
No Brasil, o Copom cumpriu o esperado e elevou a Selic, mas o comunicado que acompanhou a decisão gerou divisão entre os investidores. O Banco Central reiterou a expectativa de mais uma alta já contratada, deixando aberta a possibilidade de novos ajustes no futuro. No entanto, algumas partes do texto foram interpretadas como menos duras do que o necessário e, além disso, mal formuladas, o que adiciona um grau de incerteza ao ambiente local e pode elevar a aversão ao risco no curto prazo.
Apesar disso, o cenário global começa a esboçar um tom mais positivo nesta manhã, impulsionado pelo desempenho favorável dos mercados internacionais. Os resultados corporativos divulgados na quarta-feira trouxeram otimismo, com Meta (M1TA34) e Tesla (TSLA34) registrando fortes altas no after-hours, sugerindo um início de quinta-feira positivo para os ativos de tecnologia. Por outro lado, Microsoft (MSFT34) decepcionou e apresentou queda, mas o saldo líquido do movimento de mercado segue positivo. Bom para as ações.
Na agenda do dia, o Banco Central Europeu (BCE) anunciará sua decisão de política monetária, e a expectativa é de um corte de 25 pontos-base, reduzindo a taxa de juros de 3% para 2,75%. Essa decisão vem em resposta aos dados econômicos mais fracos da Zona do Euro, divulgados nesta manhã. Vale lembrar que o BCE já reduziu as taxas quatro vezes no ano passado, começando em junho, quando a taxa de facilidade de depósito caiu de 4% para 3%. Se os EUA voltarem a cortar juros em algum momento de 2025, é provável que o BCE siga o mesmo caminho, cortando ainda mais.
· 00:55 — Será que convenceu?
O primeiro Comitê de Política Monetária (Copom) sob a presidência de Gabriel Galípolo, o novo chefe do Banco Central, manteve o contratado ao decidir por uma elevação de 100 pontos-base na Selic, levando a taxa para 13,25% ao ano, conforme esperado. No entanto, a grande expectativa estava no comunicado que acompanharia a decisão, pois traria os primeiros sinais sobre a condução da política monetária.
Minha leitura é de que o texto manteve um tom suficientemente duro, o que era necessário diante da ausência de uma âncora fiscal – nesse vácuo, a responsabilidade de ancoragem recai sobre a política monetária. O Copom reiterou a alta de 100 pontos-base já encomendada para a próxima reunião e deixou o caminho seguinte em aberto, sinalizando a possibilidade de novos ajustes, mas sem especificar a magnitude dos próximos aumentos. Foi um comunicado sóbrio e prudente, como deveria ser.
Entretanto, não houve unanimidade nessa interpretação. Muitos investidores enxergaram um tom menos rígido do que o necessário, com algumas passagens do comunicado sendo mal formuladas, especialmente no trecho que tratava da questão das tarifas, gerando dúvidas. É natural que o mercado mantenha certa cautela diante da nova gestão do BC, principalmente porque o contexto atual exige um equilíbrio delicado entre controle fiscal, risco de dominância da dívida e ameaça de recessão.
Esse último ponto merece atenção. O risco de um overkill econômico – um aperto monetário excessivo que asfixie demasiadamente o crescimento – não pode ser ignorado. O setor de máquinas e equipamentos, por exemplo, registrou uma queda de 8,6% na receita em 2024, o que sugere um enfraquecimento da atividade industrial. Justamente por isso, a condução da política monetária precisa ser feita com cautela.
O Copom também demonstrou preocupação com as estimativas de inflação, seguindo a tendência das últimas semanas, e estendeu seu horizonte de análise até o terceiro trimestre de 2026. Poderia ter adotado um tom mais duro? Sim, poderia. Mas não foi o desastre que alguns temiam. Além disso, se houver uma reação negativa do mercado hoje, o Banco Central ainda tem espaço para corrigir o tom na ata da reunião, que será divulgada na próxima semana. O mais importante é que o ciclo de aperto continua.
Contudo, o Banco Central não pode resolver sozinho os desafios econômicos do país. Sem um esforço fiscal do governo, a política monetária terá impactos limitados. E o cenário político adiciona ainda mais incerteza à equação. O governo Lula está fragilizado, com a popularidade em queda e enfrentando dificuldades em várias frentes. Os primeiros sinais de desembarque político já começam a surgir. Gilberto Kassab, por exemplo, afirmou que Lula perderia a eleição se ela fosse realizada hoje e fez críticas diretas a Haddad. De qualquer forma, 2025 será apenas uma ponte para 2026, ano em que as disputas eleitorais ganharão protagonismo e definirão os rumos do país. Até lá, o mercado seguirá oscilando entre as expectativas de um ajuste fiscal tímido e a incerteza sobre os próximos passos da política econômica. Não é trivial.
· 01:47 — Esperando para ver
O Federal Reserve manteve inalterada a meta para a taxa de juros, mantendo-a no intervalo de 4,25% a 4,5%. Durante a coletiva de imprensa, Jerome Powell, presidente do Fed, enfatizou que o banco central precisa observar avanços concretos no controle da inflação ou sinais claros de enfraquecimento no mercado de trabalho antes de considerar novos cortes na taxa. Powell reforçou ainda que não há pressa em mudar a atual estratégia de política monetária, indicando uma abordagem cautelosa.
Essa foi a primeira pausa no ciclo de cortes após um total de 100 pontos-base de redução, distribuídos ao longo de três reuniões no final de 2024. A grande questão agora é: o ciclo de cortes pode ser retomado? Sim, sem dúvida. No entanto, sua continuidade dependerá do ritmo da atividade econômica e, principalmente, das primeiras medidas comerciais do governo de Donald Trump. Dependendo da forma como essas políticas forem implementadas, podem reacender pressões inflacionárias, o que levaria o Fed a adotar uma postura ainda mais conservadora.
A decisão do banco central provocou uma reação intensa nos mercados financeiros. Os rendimentos dos títulos americanos dispararam, enquanto os índices de ações registraram quedas acentuadas. Hoje, os investidores aguardam a estimativa antecipada do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do quarto trimestre. O consenso do mercado aponta para um crescimento de 2,6% em termos anualizados e ajustados sazonalmente, abaixo da taxa de 3,1% registrada no terceiro trimestre. Se o dado vier mais forte do que o esperado, pode haver nova pressão sobre os juros, reduzindo a margem para cortes adicionais e reforçando o cenário de juros elevados.
· 02:34 — Belos resultados
Três das sete principais gigantes tecnológicas do mercado divulgaram ontem (29) à noite seus resultados do quarto trimestre, com números que, apesar de mistos, foram predominantemente positivos. A Microsoft, por exemplo, apresentou um desempenho robusto, com crescimento expressivo tanto em receita quanto em lucro líquido. No entanto, alguns pontos chamaram a atenção dos investidores. O crescimento das vendas do Azure e de outros serviços de nuvem – um dos pilares do modelo de negócios da empresa – ficou em 31% na comparação anual, abaixo do crescimento registrado no trimestre anterior. Além disso, o capex da companhia estava sob escrutínio, especialmente após a surpresa com a DeepSeek no início da semana. A Microsoft investiu US$ 15,8 bilhões no último trimestre, um número acima das expectativas e consideravelmente superior ao mesmo período do ano anterior. Vale lembrar que a empresa já anunciou planos para investir US$ 80 bilhões em capex ao longo de 2025, reforçando seu compromisso com a infraestrutura de IA e nuvem.
A Meta, por sua vez, superou as projeções dos analistas tanto em receita quanto em lucro líquido. Durante a teleconferência de resultados, Mark Zuckerberg destacou que a Meta AI tem o potencial de se tornar a principal assistente de inteligência artificial personalizada ainda este ano. Além disso, o CEO expressou otimismo em relação ao futuro da empresa sob o governo Trump, reforçando uma visão positiva para o ambiente regulatório e econômico nos EUA. Já a Tesla ficou abaixo das expectativas em termos de lucro, impactada, em parte, pelo desempenho mais fraco nas vendas. No entanto, durante a teleconferência, Elon Musk trouxe um anúncio relevante: a Tesla pretende lançar um serviço de direção autônoma sem supervisão em Austin, no Texas, a partir de junho, sinalizando que o robotáxi da empresa pode entrar em operação ainda este ano. No balanço geral, o impacto dos resultados foi positivo, e o mercado agora se volta para os números de outras grandes companhias que divulgarão seus resultados hoje, incluindo Apple, Caterpillar, Intel, Mastercard e Visa.
· 03:21 — Violação?
A OpenAI e sua principal investidora, a Microsoft, estão conduzindo uma investigação para determinar se a startup chinesa de inteligência artificial DeepSeek teria utilizado tecnologia da OpenAI sem autorização para desenvolver seu novo modelo de IA. O modelo da DeepSeek foi construído a um custo muito inferior ao de tecnologias como ChatGPT e Llama, abalou profundamente o setor de tecnologia dos EUA, afetando desde as big techs até os fabricantes de chips de última geração (eliminou quase US$ 1 trilhão em valor de mercado das ações americanas na segunda-feira).
A principal acusação contra a DeepSeek gira em torno do uso de uma técnica chamada “destilação”, que consiste em treinar um modelo de IA a partir de outro preexistente. Embora essa prática seja amplamente utilizada na indústria, as diretrizes da OpenAI proíbem explicitamente o uso de seus modelos para desenvolver concorrentes diretos. Em 2024, a OpenAI e a Microsoft já haviam identificado e bloqueado contas que acreditavam estar associadas à DeepSeek, sob suspeita de que a startup chinesa estivesse acessando a API da OpenAI para realizar esse tipo de destilação.
Se a DeepSeek continuar avançando, a OpenAI corre o risco de perder sua posição dominante no setor, tornando-se uma peça secundária em um cenário de competição global cada vez mais acirrado. Esse episódio adiciona mais um capítulo ao conflito tecnológico entre China e EUA, e não seria surpresa se o governo Trump reagisse impondo novas restrições à venda de chips da Nvidia para a China. Além disso, novas tarifas comerciais também devem ser implementadas, intensificando a disputa entre as duas potências no setor de inteligência artificial. A corrida só está começando.
· 04:18 — Quer subir mais
No Japão, o vice-presidente do Banco do Japão (BoJ) reafirmou que um novo aumento nas taxas de juros pode ocorrer caso os indicadores econômicos evoluam conforme o esperado. Ele destacou que não é normal manter taxas tão baixas e afirmou que ainda há um longo caminho para que o país passe a operar com juros reais positivos.
A autoridade monetária japonesa já elevou os juros no ano passado e voltou a fazê-lo neste ano, mas, mesmo assim, o iene segue desvalorizado, girando em torno de ¥155 por dólar – um patamar próximo ao seu nível mais fraco desde o Acordo Plaza de 1985, quando os principais bancos centrais globais coordenaram uma ação para enfraquecer o dólar americano.
Apesar dos rendimentos significativamente mais altos dos Treasuries dos EUA, o Japão ainda reofece uma fonte atrativa de capital barato para os mercados globais, um fator que continua exercendo pressão descendente sobre o iene. Se essa desvalorização persistir, pode chegar ao ponto em que os principais bancos centrais precisem coordenar uma nova intervenção para conter a valorização do dólar, repetindo um movimento semelhante ao do Acordo Plaza.
· 05:02 — Mais gastos
A turbulência global atingiu um nível em que o investimento em defesa se tornou uma prioridade inegociável para as nações. Já mencionei isso anteriormente e volto a reforçar: a escalada dos gastos militares veio para ficar.
Os números falam por si.
Nos Estados Unidos, os gastos projetados com defesa devem alcançar US$ 1 trilhão até 2034, enquanto as despesas globais com segurança e defesa devem atingir US$ 2,5 trilhões até 2028. Além disso, o setor aeroespacial e de defesa está se expandindo rapidamente, com um mercado projetado de US$ 1,3 trilhão até 2028. Paralelamente…