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Semana promete ser agitada com ata do Copom, IPCA-15 de março, Relatório Trimestral de Inflação e mais; confira os destaques

Após uma semana de decisões montárias, indicadores brasileiros e mundiais desta semana devem guiar o ciclo econômico. Leia mais.

Por Matheus Spiess

24 mar 2025, 09:33 - atualizado em 24 mar 2025, 09:33

brasil dinheiro mercado

Imagem: iStock.com/ Nikada

Após uma das semanas mais carregadas de decisões de política monetária do trimestre, os mercados agora tentam reorganizar suas expectativas. Lá fora, Jerome Powell deu aquela tradicional dose de alívio aos investidores: reconheceu que a guerra tarifária deve pressionar a inflação, mas classificou o impacto como “transitório”. Os mercados, como sempre, agarraram-se à palavra mágica e comemoraram.

Por aqui, Gabriel Galípolo entregou exatamente o que já estava no preço: a alta contratada da Selic, com um sinal moderado de que virá mais uma elevação em maio, mas menor em intensidade. Em resumo, caminhamos a passos lentos para o fim do ciclo de aperto no Brasil, enquanto os Estados Unidos, cautelosamente, abrem espaço para discutir cortes — ou, ao menos, para especular sobre eles até o último minuto.

Vale o lembrete de sempre: a política monetária, sozinha, não faz milagre. E no caso brasileiro, o milagre é ainda mais improvável sem um mínimo de racionalidade fiscal. Nesse sentido, a tão esperada aprovação do orçamento de 2025 é, sim, positiva — não por resolver algo, mas por finalmente tirar do limbo o que o mercado já especulava há meses. O problema é que o texto aprovado continua vendendo a fantasia de um superávit que não vai se concretizar, o que obriga o governo a fazer ajustes ao longo dos próximos meses (algo difícil de se acreditar no atual governo). O mercado pode até fingir que acredita por enquanto, mas a paciência tem prazo de validade.

A semana promete ser agitada, com uma bateria de dados de atividade no Brasil e nos EUA, além de falas de dirigentes do Federal Reserve que certamente serão dissecadas até o último adjetivo. No campo internacional, qualquer novidade sobre a guerra comercial ou sobre um possível cessar-fogo na Ucrânia pode movimentar os mercados — especialmente com Brasília em silêncio, graças à viagem de Lula ao Japão. Na Europa, o tom é mais otimista nesta segunda-feira (24). As bolsas abriram em alta após dados apontarem que a atividade empresarial na zona do euro cresceu, em março, no ritmo mais rápido dos últimos sete meses, superando as expectativas.

· 00:56 — Choque de realidade

Por aqui, um dos principais destaques da semana será a ata do Copom, prevista para amanhã (25), na qual o Banco Central terá a chance — e a obrigação — de explicar com mais clareza a decisão da semana passada. O mais provável é que o documento traga um foco maior sobre a desaceleração da atividade, já denunciada por diversos indicadores desde o início do ano. Não significa, claro, que o ciclo de aperto monetário acabou — mas sim que estamos perigosamente próximos do fim da linha.

Ainda no campo macro, a quinta-feira (27) será carregada: teremos o IPCA-15 de março e o Relatório Trimestral de Inflação, ambos com potencial para calibrar expectativas sobre o ponto terminal da Selic. Já na sexta (28), saem o IGP-M e a taxa de desemprego do IBGE. Em conjunto, esses dados podem fornecer munição adicional para que o Copom opte por encerrar o ciclo em torno dos 15%. Mas sejamos honestos: a política monetária está pagando a conta do descontrole fiscal — e a conta continua subindo.

A aprovação do orçamento de 2025, que deveria ser um alívio, foi recebida com ceticismo pelo mercado. Não só porque o texto orçamentário insiste na fantasia de um superávit improvável, mas também porque há o receio, legítimo, de que o governo volte a recorrer a medidas populistas para recuperar apoio junto à classe média. Lula, por exemplo, já acena com novos pacotes de crédito — o equivalente a pisar no acelerador com o freio de mão puxado. O custo, em termos fiscais, será alto. O objetivo, claro, é eleitoral. E a antecipação do debate de 2026 é culpa exclusiva do Planalto.

O resultado desse arranjo é um velho conhecido do Brasil: o pior dos mundos. Uma combinação indigesta de inflação ainda resistente com crescimento enfraquecido. Para este ano, a expectativa é de um déficit primário na casa dos R$ 75 bilhões — bem distante da ilusão de superávit de R$ 15 bilhões vendida no orçamento. E o cenário para 2026 é ainda mais preocupante. A proposta de isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil deve custar bem mais do que o governo estima, enquanto o plano de compensação — já frágil — corre o risco de ser desidratado no Congresso.

Ainda assim, os ativos locais vêm se beneficiando do fluxo global que está se afastando dos EUA em busca de mercados mais baratos, tecnicamente mais saudáveis e menos saturados. Mas sejamos realistas: essa onda tem limite no curto prazo. Os ruídos fiscais e políticos locais funcionam como um teto para o rali. Para que esse movimento ganhe tração real, será necessário mais do que fluxo. Será preciso uma sinalização clara de que, em 2026, o pêndulo político pode finalmente oscilar na direção certa — uma agenda mais reformista, pró-mercado e comprometida com a responsabilidade fiscal. Até lá, seguimos operando no modo cautela.

 · 01:48 — Alternativa Brasil

Pelo menos nesta semana, Brasília nos concede um raro momento de silêncio — cortesia da viagem de Lula ao Japão, seguida por uma parada estratégica no Vietnã, entre os dias 24 e 27 de março. Com o Palácio do Planalto temporariamente a meio fôlego, o presidente embarca com a missão declarada de abrir o mercado japonês às carnes brasileiras, especialmente a bovina. A expectativa do governo é de avanços concretos nessa frente. Lula e sua comitiva pretendem pressionar os japoneses a enviarem, com alguma agilidade, uma missão sanitária ao Brasil — agora oficialmente reconhecido pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) como área livre de febre aftosa sem vacinação, status conquistado em fevereiro.

Além disso, o presidente quer tirar da gaveta as negociações formais de um acordo comercial entre Japão e Mercosul, um assunto que se arrasta há anos e nunca saiu da fase das intenções. Essas movimentações fazem parte de uma estratégia mais ampla do governo de diversificar seus parceiros econômicos e reduzir a dependência das duas superpotências habituais: China e Estados Unidos. Em um mundo cada vez mais fraturado por disputas geopolíticas e guerras comerciais — como a que Donald Trump acendeu e está prestes a reacender com tarifas recíprocas programadas para começar em 2 de abril —, o Brasil tenta, mais uma vez, se vender como um parceiro alternativos viável e pragmático. Foi assim com a China durante o primeiro mandato de Trump, e agora o governo tenta repetir a dose com a União Europeia e o Japão, entre outros. Resta saber se o esforço diplomático trará frutos duradouros ou se tudo ficará, como de costume, no campo das promessas e da retórica. 

· 02:35 — Novos ventos

Nos EUA, o grande destaque da semana passada foi a decisão de política monetária do Federal Reserve. Embora os juros tenham permanecido inalterados — exatamente como o mercado já esperava —, o tom do comunicado trouxe uma suavização estratégica. O Fed apareceu mais tranquilo em relação às pressões inflacionárias, num movimento que o mercado prontamente interpretou como dovish. Além disso, como já havíamos antecipado, o banco central americano decidiu reduzir o ritmo do seu Quantitative Tightening — ou seja, vai enxugar o balanço em velocidade menor do que vinha fazendo. Em outras palavras, menos aperto monetário no curto prazo, o que naturalmente funciona como um alívio (ainda que pontual) para os ativos de risco.

Mas a euforia durou pouco. A linha entre uma política monetária mais branda e o medo de uma recessão voltou a ficar perigosamente visível. O alívio do Fed foi interpretado por alguns como prudência. Por outros, como sinal de que o crescimento pode estar fraquejando mais do que se admite publicamente. Essa ambiguidade vai continuar sendo testada ao longo desta semana. Todos os olhares estarão voltados para o índice de confiança do consumidor, a nova leitura do PIB e, principalmente, para o PCE — o indicador de inflação preferido do Fed, programado para sexta-feira (28). O cenário ideal seria um número ligeiramente abaixo das expectativas: suficiente para sustentar a narrativa de cortes de juros no segundo semestre, mas não tão fraco a ponto de reacender o pânico sobre uma possível recessão. É um equilíbrio delicado…

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· 03:21 — Eleições canadenses: o pêndulo já virou

Como já havia antecipado por aqui, o novo primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, resolveu não perder tempo: mal assumiu a liderança do Partido Liberal após a renúncia de Justin Trudeau no início do ano e já convocou eleições parlamentares antecipadas para 28 de abril. A votação estava originalmente marcada para 20 de outubro, mas Carney, que acumula no currículo a presidência dos bancos centrais do Canadá e do Reino Unido, quer um mandato próprio. Mais do que isso, Carney sabe que, para enfrentar de igual para igual a crescente hostilidade comercial dos Estados Unidos — que deve ganhar novos contornos com Trump de volta ao tabuleiro —, ele precisa de respaldo político claro. E, claro, também quer aproveitar o bom momento: desde que seu nome passou a figurar como líder dos liberais, as pesquisas deram uma respirada, empurrando o partido para cima após anos de erosão sob Trudeau.

Até pouco tempo atrás, tudo indicava que o Canadá caminhava para uma mudança de guarda, com os conservadores de Pierre Poilievre prontos para capitalizar o cansaço do eleitorado com o liberalismo desgastado de Trudeau. Os liberais, percebendo o inevitável, tomaram a única decisão sensata: tiraram Trudeau de cena e colocaram alguém com perfil mais técnico, mais sóbrio e menos contaminado pelas guerras culturais. Já discutimos aqui que a ascensão de Carney não é um caso isolado. Ela se encaixa perfeitamente na onda global de rejeição a lideranças desgastadas e na movimentação pendular do cenário político que começou a se intensificar em 2024 — e que promete continuar em 2025 e 2026, inclusive, podendo se repetir no Brasil.

Hoje, os liberais sob a liderança de Carney têm uma leve vantagem, embora a disputa siga apertada. Ainda assim, o simples fato de o processo eleitoral estar sendo conduzido por uma figura mais centrista e previsível já acalma os mercados — especialmente se comparado ao ambiente tóxico e polarizado que se formaria com Trudeau arrastando sua impopularidade até outubro. Em resumo, Carney joga com o relógio, tenta capitalizar seu capital político antes que ele evapore — e, de quebra, oferece ao mercado algo raro em tempos recentes: um pouco de previsibilidade.

· 04:12 — Problema turco

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, decidiu dobrar a aposta e adotar uma postura de confronto justamente quando menos precisava de mais tensão. Enquanto o principal partido da oposição convocava protestos em todo o país, milhares de manifestantes tomaram as ruas — desafiando abertamente a proibição estatal de aglomerações — após a prisão de seu maior adversário político, o prefeito de Istambul, Ekrem Imamoglu. A detenção, tão arbitrária quanto previsível, provocou um terremoto nos mercados financeiros: as ações turcas sofreram sua pior semana desde 2008, a lira mergulhou e o custo para segurar a dívida do governo disparou. Em outras palavras, Erdoğan conseguiu atrair exatamente o tipo de atenção que não queria no momento — especialmente num país que ainda tenta, entre tropeços autoritários, manter alguma fachada institucional.

A ironia é que, até semanas atrás, o governo turco ensaiava uma tentativa de reconexão com o Ocidente. O processo de adesão à União Europeia, congelado há anos em Bruxelas e tratado com um misto de desprezo e indiferença, voltava timidamente à mesa — em grande parte graças à reconfiguração da política externa dos EUA sob Donald Trump, que vinha abrindo espaço para rearranjos estratégicos em torno da Turquia. Mas a repressão política interna, a prisão de figuras da oposição e os flertes autoritários de Erdoğan não combinam com o figurino exigido por Bruxelas. Por mais que Trump possa facilitar o jogo no plano internacional, não há maquiagem diplomática que esconda o colapso democrático em curso.

Em resumo: Erdoğan queria projeção e legitimidade internacional, mas acabou entregando à comunidade global um espetáculo político digno de repúdio. E, como bônus, detonou sua própria economia no processo. 

· 05:04 — Apesar do tático não ser dos melhores, o estrutural ainda é bom

Nesta semana, os holofotes de Wall Street também se voltam para o mercado de IPOs, com a estreia prevista da CoreWeave (CRWV) na Nasdaq — uma empresa americana de computação em nuvem turbinada pelo apoio da Nvidia (NVDA). A companhia pretende levantar até US$ 2,7 bilhões, buscando uma avaliação ambiciosa de US$ 26 bilhões. Trata-se de um teste direto não apenas para o apetite por novas ofertas, mas especialmente para o fôlego das teses de inteligência artificial, que neste ano têm patinado no desempenho, apesar do barulho incessante.

Sobre o autor

Matheus Spiess

Estudou finanças na University of Regina, no Canadá, tendo concluído lá parte de sua graduação em economia. Pós-graduado em finanças pelo Insper. Trabalhou em duas das maiores casas de análise de investimento do Brasil, além de ter feito parte da equipe de modelagem financeira de uma boutique voltada para fusões e aquisições. Trabalha hoje no time de analistas da Empiricus, sendo responsável, entre outras coisas, por análises macroeconômicas e políticas, além de cobrir estratégias de alocação. É analista com certificação CNPI.