Breve lição para quem ainda não sabe morrer

Quando o mercado sobe, são todos gênios.

Quando o mercado sobe, são todos gênios.

Quando o mercado desaba, apenas uns poucos investidores demonstram sabedoria financeira.

Não é uma surpresa se ponderarmos que há raros sábios no mundo, mesmo extrapolando o estrito âmbito financeiro.

Se você está aplicando para a vaga, tome nota: a sabedoria nada tem a ver com a busca por conhecimento, e menos ainda com a pretensão de se tornar um sábio.

É sábio aquele que vive próximo ao contentamento e da forma mais livre possível, tendo superado os medos que derivam de nossa finitude intrínseca.

Aos demais, não sábios, fica claro por que as crises econômicas incomodam tanto. Elas representam uns dos vários encontros que temos com a morte.

Se você acha que morremos apenas uma vez na vida, você é provavelmente muito novo para estar lendo esta newsletter.

Morremos a cada vez que nos encontramos com um contexto irreversível.

O medo do irreversível paralisa nosso raciocínio e nossa capacidade de agir livremente. Ficamos presos em memórias e aspirações, nostalgias e expectativas. Fugimos do presente, onde as oportunidades estão postas.

Mentira que investir é pensar no futuro.

Investir é, acima de tudo, aprender a morrer.

Ver sua carteira de ações cair trinta por cento em 20 dias e não chorar de tristeza no próprio velório.

Ironicamente, investidores com medo da irreversibilidade da queda vendem seus ativos de risco a qualquer preço e nunca mais voltam à Bolsa, garantindo com isso um drawdown irreversível.

Já os que esperam, protegidos, pela recuperação percebem que aconteceu sim uma morte, mas não era o fim do mundo. Os preços voltam, os valores voltam, e poderemos enriquecer uma vez mais.

Spinoza gostava de dizer que o sábio é aquele que morre menos do que o tolo.

É isso mesmo.

Não somos deuses do mercado, nem desejamos ser.

Diante de uma imortalidade impossível, estamos contentes em morrer menos que os outros, e assim vivemos mais que os outros também.

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