Do que eu falo quando falo sobre o IPO de Vivara?

Sempre que surge um IPO interessante como este da Vivara, renasce no mercado a vontade epistemológica de vislumbrar a perpetuidade de uma empresa a partir de uma estaca zero.

Sempre que surge um IPO interessante como este da Vivara, renasce no mercado a vontade epistemológica de vislumbrar a perpetuidade de uma empresa a partir de uma estaca zero.

É claro que Vivara não está partindo efetivamente do zero. O negócio já tem quase 60 anos de história, foi fundado no centro de São Paulo como uma lojinha familiar de comercialização de joias. Outro desses (raros) casos bem sucedidos de verticalização.

Mas, para o grande público de Bolsa, é como se ela aparecesse mesmo a partir de agora.

Ao analista financeiro tradicional (um tipo que não trabalha na Empiricus), resta cumprir o mito sisifiano de tentar extrapolar o passado montanha acima, só para vê-lo rolar montanha abaixo uma vez mais.

Se você é um dos quatro leitores do Day One do Felipe, já sabe disso melhor do que ninguém (porque ninguém mais sabe), ou melhor do que todo mundo.

O futuro financeiro está simplesmente fora do alcance presente, e usar o passado para extrapolação futura produz um mapa errado. Como diz Taleb, no map is better than a wrong map.

Até aí, sem grandes novidades para os quatro leitores.

No entanto, existe ainda uma dificuldade adicional, que torna a vontade de prever o futuro - que é também a vontade de controle - não apenas um esforço tolo, mas também ridículo.

Se o processo de análise de uma empresa é traduzido epistemologicamente (construção de conhecimento) como um processo de descoberta, não custa lembrar que a própria vivência da empresa configura outro processo de descoberta, várias vezes mais complexo.

O analista tradicional, portanto, não contente com a ambição desmedida de acessar de longe o futuro de um negócio, assume também o desafio implícito de tocar o curso futuro do próprio negócio.

Digo isso sob total convicção própria, sob o ponto de vantagem de alguém que tenta analisar empresas listadas enquanto briga para gerir uma empresa.

Se essa dualidade acontecesse também para os demais analistas, talvez não caíssem no conto de que a trajetória de um negócio - e, por conseguinte, de uma ação - pode ser minimamente determinística.

Vivido intensamente dia após dia, até que o indivíduo morra ou a empresa morra, o processo de descoberta de um empresário não é rotineiro (apesar do dia após dia) e não é nada fácil.

Se fosse fácil e rotineiro, não seria uma descoberta, e não teria o potencial de render lucros excepcionais como de +100 por cento, +1.000 por cento ou +10.000 por cento ao longo do tempo (um tempo cada vez mais curto, e com mais mortalidade).

Será que essa nova lojinha de doces, na Esquina da Bráulio Gomes com a 7 de abril, vai sobreviver e eventualmente dar lucros?

Não faço a mínima ideia, jamais poderia saber, mesmo o dono da loja não sabe.

Não existe um caminho mecânico, uma função de produção em que você injeta inputs e colhe outputs.

O processo de descoberta é criativo, gratuito e extremamente sábio. Dá medo, eu sei. Mas é o que tem enriquecido largamente todos nós nos últimos 150 mil anos e, mais especificamente, nos últimos 150 anos.

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