Invista em coisas que você NÃO entende

Pessoal adora citar Warren Buffett, bancando a nata do value investing.

Pessoal adora citar Warren Buffett, bancando a nata do value investing.

Dizem por aí que o Warren prega: "você tem que conhecer MUITO BEM aquilo em que investe".

Ou algo como: "only invest in businesses that you understand".

Eu desconfio que ouviram tudo errado.

Algum jornalista distraído, enquanto entrevistava o sábio de Omaha, transformou "you don't understand" em "you understand".

Não seria a primeira vez. 

Como também jornalista e fundador da corretora Empíricos, posso afirmar que se trata de um erro comum e residual dentro dos critérios da profissão.

Acredito, de verdade, que precisamos investir em coisas que não entendemos.

Primeiro pela própria incapacidade epistemológica de alcançar uma compreensão completa do mundo (leia Wittgenstein).

Segundo porque todo investimento feito em cima de coisas que não entendemos tende a ser um investimento muito mais seguro, acompanhado de limites naturalmente restritos quanto ao sizing da posição (colocamos dinheiro excessivo em ativos que julgamos entender).

Não estou dizendo que você não pode vir a esmerilhar determinada tese de investimento.

Eu mesmo sou um grande curioso, e aprecio os desafios intelectuais associados à arte de (tentar) ganhar dinheiro.

No entanto, você só pode - e deve - vir a entender depois de se interessar pelo ativo; nunca a priori.

Idealmente, a tese tem que ser tão óbvia (óbvia = convexa) que sua compreensão passa a ser meramente alegórica, um mero exercício de vaidade racional.

Quem é que se apaixona por alguém porque ela/ele tem os olhos verdes?

Understanding is a poor substitute for convexity.

Por exemplo: 

Suponha que determinada incorporadora não possui dívidas relevantes e negocia a 50% do  valor patrimonial. 

Seu IPO, feito poucos meses atrás, nas mesmas condições intrínsecas, a introduzira em Bolsa por 130% do patrimônio.

E o setor pede, tipicamente, 200%.

Claro, vamos analisar o mercado de atuação, o tamanho dos estoques, qualidade do VGV, currículo do management, fazer toda a lição de casa bonitinha.

Vamos tirar dez na prova!

Mas por que não colocar uns mil reais num negócio desse tipo, mesmo antes de decifrar todas as suas nuances?

O esforço de entender custa caro no mercado.

A Squadra só alertou que o IRB estava nu porque teve a rara humildade de não entender aquilo que estava logo à frente dos olhos de todo mundo.

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